quinta-feira, 27 de abril de 2017

Noite de insônia (Poema de Isabel Furini)

NOITE DE INSÔNIA

o poeta caminha
sobre sobre a escuridão da noite
e sobre o abismo das letras

no encalço de um poema
ele transforma sua noite em insônia
traça itinerários
(imaginários)
e quando sua insônia encontra
a caneta da inspiração
despencam sobre o caderno
iluminados versos de ódio
e afiados versos de amor.

Isabel Furini

quinta-feira, 20 de abril de 2017

O círculo que o rio não levou

O CÍRCULO QUE O RIO NÃO LEVOU 

Observou o círculo. Uma cobra branca, nuvens e fantasmas faziam parte do espetáculo. A cobra era enorme e mordia a própria cauda. Devorava-se (como um homem mastigando seu passado). Pensou em Heráclito. As águas levariam o círculo branco dos sonhos? Cinzelava o rio de Heráclito quando foi deglutido pela cobra. Hoje, ele faz parte do círculo e de sua quadratura.

Isabel Furini
Esse conto foi escrito na oficina de narrativa orientada pelo poeta e escritor Ricardo Corona.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

No coração das lembranças - Poema de Isabel Furini


NO CORAÇÃO DAS LEMBRANÇAS

perceber o ritmo do poema 
que percorre os corredores da infância

o vô ouvindo música italiana
a vó cuidando das flores do jardim

e meu coração nutrindo-se
com as lembranças.

Isabel Furini


sábado, 15 de abril de 2017

A capivara, a tartaruga e o presente de Páscoa - Poema de Isabel Furini




Estava doente a capivara
E não podia comer chocolate.
Por isso, nessa Páscoa
Ela ganhou um abacate
Um bolo de morango
E uma torta de tomates.

A tartaruga percebeu
Que a capivara chorava,
E chamou o avô Tartaruga.
O vovô era sapateiro,
Ele no nariz tinha uma verruga,
Mas era um idoso bondoso.

O vô Tartaruga disse com voz calma:
- Vou presentear a capivara
Com este sapato de couro:
Este sapato anima,
pois é a minha obra prima.

A capivara recebeu os sapatos
E secou as lágrimas.
Ela ficou muito agradecida:
- Obrigada, vovô Tartaruga.

A capivara melhorou.
Um mês depois da Páscoa
decidiu usar os sapatos
e um chapéu da mesma cor,
na festa do macaco Nicanor.

- Esses sapatos são muito elegantes.
Falou uma linda elefante.
E a capivara, feliz, respondeu:
- Obrigada, com este lindos sapatos
estou sentindo-me radiante.


Isabel Furini




A Guerra - Poema de Isabel Furini

A GUERRA

Podemos migrar com as aves silenciosas
e negar a investida das armas
contra os inocentes

a humanidade tem um arsenal de mentiras
para justificar
qualquer carnificina

mas quem poderá mascarar
o medo?
esse terror cinzelado nas retinas?

Isabel Furini


Arte feita com cartuchos de bala
Feira de Arte de Seattle
Fotografia de Isabel Furini

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Desafios - Poema de Isabel Furini



DESAFIOS

Nada a reclamar
nada a declarar
no livro do destino
na trajetória da vida
(esta viagem sem descanso)
somos como navios

navegamos
suportamos tempestades
naufragamos
descansamos
e voltamos a desafiar
as águas do oceano.

Isabel Furini

sexta-feira, 31 de março de 2017

Amado Nervo: Espacio y tiempo e otros poemas

ESPACIO Y TIEMPO

Espacio y tiempo, barrotes
de la jaula
en que el ánima, princesa
encantada,
está hilando, hilando cerca
de las ventanas
de los ojos (las únicas
aberturas por donde
suele asomarse, lánguida).

Espacio y tiempo, barrotes
de la jaula;
ya os romperéis, y acaso
muy pronto, porque cada
mes, hora, instante, os mellan,
¡y el pájaro de oro
acecha una rendija para tender las alas!

La princesa, ladina,
finge hilar; pero aguarda
que se rompa una reja...
En tanto, a las lejanas
estrellas dice: «Amigas
tendedme vuestra escala
de la luz sobre el abismo.»

Y las estrellas pálidas
le responden: «¡Espera,
espera, hermana,
y prevén tus esfuerzos:
ya tendemos la escala!»

Amado Nervo



Y EL BUDA DE BASALTO SONREÍA


Aquella tarde, en la alameda, loca
de amor, la dulce idolatrada mía
me ofreció la eglantina de su boca.

Y el Buda de basalto sonreía...

Otro vino después, y sus hechizos
me robó; dile cita, y en la umbría
nos trocamos epístolas y rizos.

Y el Buda de basalto sonreía...

Hoy hace un año del amor perdido.
Al sitio vuelvo y, como estoy rendido
tras largo caminar, trepo a lo alto
del zócalo en que el símbolo reposa.
Derrotado y sangriento muere el día,
y en los brazos del Buda de basalto
me sorprende la luna misteriosa.

Amado Nervo

quinta-feira, 30 de março de 2017

Isabel Furini: A Visão do Jardim



A VISÃO DO JARDIM

Esse jardim representa
o espaço
o mundo
a vida

tormentas e calmaria
ódios, rancores e amores
Sol e chuva e ventania

porque o jardim
com seus espinhos e suas flores
é um reflexo da vida.

Isabel Furini

Xamã sentado em sua cadeira barcelona

O xamã sitia espaços sibilinos
e descobre oníricas couraças.

Na textura das palavras
desvenda temores infantis.
No leque das frases,
libélulas de esperança.

Desafia lembranças
perdidas em olhares despedaçados,
vasculha terrores noturnos,
farpas de ódio
e amores perdidos.

O psicanalista indaga e silencia.
Invade os pesadelos
e encontra princesas esquecidas.

Por fim, descobre os subterfúgios
e assinala trilhas desconhecidas
nas curvas da espessa linha do tempo
(subjetiva).

Sementes de lembranças crescem
entre as cinzas do esquecimento,
o xama
(sentado em sua cadeira Barcelona)
espera calmamente pelo milagre do renascimento.

Isabel Furini

A Casa Paterna - Poema de Isabel Furini

Trituradas as garras do silêncio
sobre o velho álbum fotográfico.
O pai (morto há anos) sobrevive
nos retratos desbotados.

Revelam-se fisionomia e emoções.

Quantos olhares,
quantos rostos deixei submersos
nos interstícios da memória,
quantos exílios na areia do passado
e exílios futuros projetados
no palco dos sonhos.

Genealogias, uivos e fumaça
despencam do álbum fotográfico
aberto sobre a mesa.
Observam-nos os mortos,
pousam nas fotografias como estacas de mutismo.

Amam-nos.
Esperam-nos (sedentos de carinho)
com os braços paralelos
                                       abertos
entre galáxias de culpa e de mistério.
                                              Imensamente abertos.


Fotografia de Isabel Furini


Um Pincel - Poema de Isabel Furini

UM PINCEL

Poema dedicado à artista plástica Katia Velo

A força telúrica
impulsiona o pincel.

Um carrossel de cores
invade a flora Amazônica.

Katia Velo é artista
e é ilusionista.

Seu pincel espalha cores brilhantes
e formas estilizadas.

A beleza das cores
impressiona a alma dos visitantes.


quarta-feira, 29 de março de 2017

Além de Ponte - Poema de Isabel Furini

Quadro de Neiva Passuello


ALÉM DA PONTE

está suspensa a ponte do passado-presente
sob essa precária ponte de madeira
corre o rio das emoções

pescadores inexperientes (vitimas da cegueira)
mergulhamos
nas águas escuras das emoções
tentamos estabelecer a ordem no fluir caótico do passado

será possível resgatar antigos amores?
amores estraçalhados pela foice do tempo
mortos entre as ondas do ontem

é um momento triste
é o triste momento da desilusão.

Isabel Furini

Site de Relacionamento - Poema de Isabel Furini



SITE DE RELACIONAMENTO

insônia solitária
só resta navegar pelo mundo virtual entre sombras
e sonhos.

giram imagens de namoros ilusórios
na tela.

inábil navegante luta contra ondas de mutismo,
sitia os mares de silêncio da alma feminina com frases metálicas
e rochas vulcânicas.

ingênuo
brinca no arguto trapézio dos vocábulos

clandestino
naufraga em alfabetos amorosos

humilhado
procura símbolos arcaicos nos retratos

vencido
volta com o escudo roto e o coração abatido.

vítima da frustração digita decepções no teclado.

(Esse poema faz parte do livro ",,, E Outros Silêncios", publicado pela editora Virtual Books, em 2012).

Isabel Furini


Quadro de Dina de Souza


ESSÊNCIA Poema de Isabel Furini

ESSÊNCIA

uma chuva de sombras bate minha porta
algumas fantasias entram pela fechadura
trazendo farrapos da infância
e  túneis de ideias

a cancão dessa chuva fala que o amor
(o Eros dos antigos gregos)
é fogo ardente
é vento instável que arrasta escuro auspício
o amor é profundo oceano
frágil semente
o amor é poderoso e mortal como um faraó egípcio

o amor é fugaz
e belo

o amor
é impermanente como todas as criaturas deste mundo.

Isabel Furini

Quadro de Ivani Silva

Impulso - Poema de Isabel Furini

Quadro de Davi Faustino

IMPULSO

assoma a noite estrelada no caldeirão das lembranças
e a chama da paixão avança - avança pela campina
rumo ao norte magnético
(leve como uma dançarina)
até ancorar constrangida
no horizonte de eventos

mas o amor (sempre renovado e aventureiro)
procura outro ser
e  como exímio arqueiro
lança sua flecha ao vento - flecha com o  forte veneno
da cobra dos sentimentos
porque o amor é toxina arrastada pelo vento.


Isabel Furin

domingo, 26 de março de 2017

Uma Rosa (Poema de Isabel Furini)



UMA ROSA

Cai a chuva sobre a rosa
a rosa não se incomoda
nem com palavras maldosas
porque essa rosa não tem
as fraquezas do narciso
essa rosa tem uma alma
poderosa
poderosa
poderosa
poderosa
poderosa!

Isabel Furini

Extravasar - Poema de Isabel Furini



EXTRAVASAR

Quando as flores
alegram as retinas
a alma estende
suas asas
destrói
as mordaças
e extravasa
seus sonhos
e paixões.

Isabel Furini

sexta-feira, 24 de março de 2017

O QUE É POESIA? (por Isabel Furini)



O QUE É POESIA?

Não é megalomania
mas é fantasia
não espia
mas sitia a alma humana

Poesia é euforia
inebria, comove
é como o vinho
pode ser mania

a Poesia semeia utopias
e faz crescer as asas.

Isabel Furini

quarta-feira, 22 de março de 2017

DESÍGNIOS (Poesia de Isabel Furini)

DESÍGNIOS

A Poesia não falha
batalha
e embaralha as palavras

supera as muralhas
e queima as mentiras na fornalha da verdade
retalha a superficialidade
e corta com navalhas
os preconceitos da sociedade

a poesia embaralha os condicionamentos
e vislumbra universos paralelos.

Isabel Furini




terça-feira, 21 de março de 2017

A HORA (Poema de Isabel Furini)




A HORA

quando a flor desabrocha
anuncia a primavera
no outono a flor espera
e com profunda harmonia
abençoa o universo
pois tristezas e alegrias
fazem parte desta vida

somos escravos do tempo
existe a hora de nascer
e a hora da despedida.

Isabel Furini


sábado, 18 de março de 2017

A Escada (Poesia de Isabel Furini)






A ESCADA
A vida é uma escada
todos podemos triunfar
e nesse longo caminho
precisamos aprender
a defender nosso lugar
sem derrubar o vizinho. 

Isabel Furini





sexta-feira, 17 de março de 2017

O PORTAL (Poema de Isabel Furini)



PORTAL

Açoita o vento na noite de solidão
as sombras estão apinhadas
nas grades do portão
os fantasmas sorrateiros
sabem que não podem sair
e em vão tentam abduzir
algum humano ingênuo
para fugir e remembrar
desse mundo que deixaram
quando rumo ao mundo astral

atravessaram o portal.

Isabel Furini

ELOQUÊNCIA - Poema de Isabel Furini




ELOQUÊNCIA

o amor diminui
entre palavras
mas cresce
com o discurso silencioso
de uma flor vermelha.

Isabel Furini 

terça-feira, 14 de março de 2017

SONHOS - Poema de Isabel Furini


SONHOS

Sonhos são caminhos
de ausência
selvagens Minotauros
(o eu despedaçado
em labirintos de espelhos)

sonhos são
universos paralelos

flores
que o tempo rasga
es espalha.

Isabel Furini

segunda-feira, 13 de março de 2017

O Gato Renato - Poema infantil de Isabel Furini


O GATO RENATO

Esse é o gato Renato,
ele não gosta de rato,
mas é um gato pacato,
e nunca morde o rato.


Renato é amigo de um pato.
O pato joga baralho
enquanto come contente
pão com azeite e alho.


Renato se fez amigo
de um enorme papagaio.
O papagaio odeia a chuva
e tem medo de raio.

Renato acha no jardim
um pequeno curió.
O pássaro assustado grita:
Não se aproxime gato!

Renato ri e fala:
- Eu não sou um gato agressivo.
Eu um gato mansinho
que gosta de fazer amigos.

Viva o gato Renato!!!

Isabel Furini

domingo, 12 de março de 2017

Será um avião? Será um condor?

A lei da gravidade,
com muita tranquilidade
ele sempre desafia.

Ele voa longe do chão.
Será um condor?
Será um avião?

Pense, querido amiguinho:
ele trabalha no circo,
ele é um grande artista.
Será ele um palhaço?
Será um malabarista?

Lá, no alto do circo
ele brinca, ele gira,
ele faz muitas piruetas,
ele faz acrobacia
e com um salto triplo
ele se joga na rede,
se joga com maestria.

Segundo falou minha mãe
esse tipo de artista
é tão ágil quanto um leopardo,
tão rápido quanto uma flecha,
tão certeiro quanto um dardo,
ele tem muita ousadia
e não sofre de acrofobia*.

Quem será???
Será um malabarista? Um palhaço?
Um desenhista? Um futebolista?
Um para-quedista? Um violinista?
Ou será um trapezista?


* acrofobia: medo de lugares altos

Poema de Isabel Furini - Contato: e-mail: isabelfurini@hotmail.com

sábado, 11 de março de 2017

Pétalas

PÉTALAS

Pétalas de flores
são sorrisos da alma
e acalmam
as profundas feridas
da batalha da vida.

Isabel Furini


Expressividade - Poema de Isabel Furini


EXPRESSIVIDADE

Flores nas mãos
na alma
no músculo cardíaco

flores na superfície
do espelho da vida
flores sob o Sol
do meio-dia
e nas horas
de escuridão

flores para dizer:
"eu te amo"
e flores para pedir perdão.

Isabel Furini

sexta-feira, 10 de março de 2017

segunda-feira, 6 de março de 2017

Criatividade (Poema de Isabel Furini)

CRIATIVIDADE

As palavras avançam e recuam.
Conotativas e denotativas chegam à mente do aluno,
só algumas ocupam a folha em branco,
mas são atacadas pela caneta vermelha do professor.

A noite, sozinho, o rapaz apoia a cabeça no travesseiro
e percebe (nos interstícios de seus pensamentos)
o silêncio geometrizando um texto.
Um texto.
Um texto perfeito!

ISABEL FURINI

Leitura e Saudade (Poema de Isabel Furini)

Leituras da época de infância,
histórias escritas nos anais das lembranças.

Emoções perambulam pelas páginas
(Pinóquio mente novamente e seu nariz cresce,
a fada madrinha ajuda a linda Cinderela
e o beijo de amor acorda a Bela Adormecida).

Ao abrir o livro do passado
a saudade bate à porta,
e nosso eu criança se alimenta
com a leitura emocionada
de cada página e de cada trama.

Isabel Furini

sábado, 4 de março de 2017

O POLVO E OS SAPATOS I e II (Poema infantil de Isabel Furini)

Fotografia de Isabel Furini 

O POLVO E OS SAPATOS

Havia uma sapataria
em uma caverna no fundo do mar.
O dono era um caranguejo
que gostava de pintar.

Ele disse ao polvo:
- Não tenho tantos sapatos
terá que voltar  outro dia
pois hoje tenho que pintar
um quadro para minha tia.

Sexta-feira o polvo gigante
voltou à sapataria
e o caranguejo falou contente:
- Tenho sapatos marrons.

Mas eu posso pintar os sapatos
de outra cor,
pois sou um grande pintor.





II

A  lagosta, a ostra e o napoleão
elogiaram os sapatos.
Ficou tão feliz o polvo
que abraçou o camarão Salvato.

Mas quando o tubarão
o convidou a jogar futebol,
o pobre polvo entendeu
que os sapatos não eram bons.

Então o polvo voltou
para a mesma sapataria
para falar com o caranguejo,
pois um tênis ele queria.

Comprou um par de tênis.
O polvo estava encantado!
Então, ele ficou de goleiro
e ficou meio assustado.

Perdeu de 3 a 1
O polvo, muito deprimido,
tirou os tênis, não falava...
até que o caranguejo amigo

gritou: - Não fique emburrado,
pois ninguém nasce sabendo!
O importante é se aprimorar
e para aprender, treinar.

Treinou durante alguns meses
com o seu mestre, o caranguejo,
e no final do campeonato
foi a vez do polvo gigante.

E era bom jogador, esse polvo!
Nadava rapidamente
e tinha força nos tentáculos.
Era um forte combatente.

O polvo fez vários  gols
o público estava entusiasmado.
O bacalhau ficou zangado,
porque ele estava perdendo.

E o caranguejo disse ao polvo:
- Alguns gostam de cantar,
outros gostam de correr
ou de jogar futebol.

Mas o segredo do êxito
é treinar com determinação.
Treinar energicamente
para ser um grande campeão.

Isabel Furini

Isabel Furini é poeta e palestrante - e-mail: isabelfurini@hotmail.com

Espelhar (Poesia de Isabel Furini)


ESPELHAR

Vestimos preconceitos sexuais e medos
- nunca olhamos nossos desejos verdadeiros
no espelho do eu
deciframos tendências instintivas
lambuzamos a boca com prazeres proibidos
(uva e mel dionisíacos)

Isabel Furini

Versos (Poesia de Isabel Furini)



VERSOS

Pólen de imagens e palavras
serpenteiam na alma

cada verso carrega
flores coloridas de emoções
e surgem os poemas
ousados e matreiros.

Isabel Furini

Essas águas (poema filosófico)



ESSAS ÁGUAS

a vida é impermanência não pede licença
para mudar o rumo

sentimos a ausência dos seres amados
amigos perdidos nas rápidas águas
ou nas curvas do rio.

para Heráclito essas águas
são luz e são fráguas para temperar a alma
- somos e não somos.

Isabel Furini

Turistas (poesia de Isabel Furini)

TURISTAS

somos turistas nesta Terra
turistas do tempo

em nossas cabeças se unem
os opostos - somos universos
de infinitas possibilidades 

somos Quetzalcoatl
(ave e serpente)
somos peregrinos da subjetividade.

Isabel Furini






NA ESCURIDÃO


As sombras sobre as areias
revelam as flores do deserto
(a teia do destino
liberta ou bloqueia)
na escuridão
a rainha-da-noite
abre sua branca flor.

IsabelFurini



Epidemia Poética (Poesia de Isabel Furini)


Palavras - Poesia de Isabel Furini

PALAVRAS
O beija-for
(galanteador)
fala:
- o perfume
é a música das flores
e suas cores
são poesia
e fazem ressurgir
(sobre o barro do mundo)
sentimentos de alegria.

Isabel Furini

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Amor II, III, IV, V (Poemas de Isabel Furini)


O AMOR II

Tudo canta.
A fonte de água clara,
o deserto, a montanha,
as árvores do campo
e a chuva na vidraça.

O tamborilar
dos dedos
é uma sinfonia.

Tudo muda.
O mago amor
transforma
o mundo em poesia!

Isabel Furini



São olhares, são beijos,
 a mão que aperta
e sente que a solidão
para sempre foi morta.
 Não estou sozinho, não!
É o grito primitivo
do verdadeiro amante
que volta do passado
e encontra na mão amiga
o bálsamo constante,
para acalmar sua carência e sua dor.

Isabel Furini




Os amantes se encontram!
Luz de pirilampos
a iluminar a noite...
As estrelas titilam
ao mais breve toque
e se os corpos se enlaçam
om paixão e veemência.

O orvalho da manhã
cobre de amor as praças
e os pássaros cantam
e levantam as asas
em vôos fortes e rápidos,
de poderosas águias.

Isabel Furini

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Éramos -Poema e Isabel Furini

Arte digital de Carlos Zemek



ÉRAMOS

Antes de nascer
éramos alma
      - flores puras
pura alegria
do jardim de Deus.

Isabel Furini

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

SOL - Poema de Isabel Furini


SOL

o Sol vence a bruma
é ilumina a praia
a areia e a espuma

de noite ou de dia
que o Sol da alegria
consuma as tristezas.

Isabel Furini

sábado, 18 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O GATO GUITARRISTA (Poema de Isabel Furini)

O GATO GUITARRISTA

Tobias é um gato mimado
Ele quer ser trapezista.

Por isso está sempre treinando
E subindo no telhado.

O Tobias é um lindo gato,
Mas ele tem suas fobias.

E quando foi ao circo
Tentou subir no trapézio,

Mas começou a chorar,
Ao perceber que não conseguia.

Um velho amigo falou:
- Você pode ser guitarrista.

Tobias fez curso de música,
E o gato tinha talento.

Hoje é de um grupo de rock
E na Tv. fez um depoimento:

- Existem muitos caminhos,
Cada gato tem seu dom.

Nunca seja derrotista!
Eu queria ser trapezista...

Mas hoje sou muito feliz,
pois sou um grande guitarrista.

Isabel Furini - e-mail: isabelfurini@hotmail.com





quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Estudos sobre a identidade cultural poetisa Isabel Furini - por Maria de Fátima Gonçalves

INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE
CURSO: Literatura e Ensino (especialização)
DISCIPLINA DE PÓS-GRADUAÇÃO: Estudos Culturais
PROFESSORES: Francisco Leandro, João Batista e Maria Eliane
Discente: Maria de Fátima Gonçalves
ATIVIDADE AVALIATIVA DO MÓDULO IV: Minicurso
TITULO DE MINICURSO: Estudos sobre a identidade cultural da escritora e poetisa Isabel Furini na perspectiva de identidade cultural pós- moderna.
             I ENCONTRO SOBRE LITERATURA E ESTUDOS CULTURAIS
                                                         
                                                                  ***

PROFESSORA RESPONSÁVEL: Maria de Fátima Gonçalves

                                                           E-mail: fatimamare@bol.com.br

Mini Currículo: graduada em pedagogia (UFRN) pós graduanda (especialização) em Literatura e ensino (IFRN) professora e poetisa. Com poemas publicados no site Recanto das Letras e no Blog da escritora poetisa e educadora Isabel Furini.

INSTITUIÇÃO DO RESPONSÁVEL: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte

TÍTULO: Estudos sobre a identidade cultural da escritora e poetisa Isabel Furini na perspectiva de identidade cultural pós- moderna.

PÚBLICO-ALVO: estudante da Educação Básica (Ensino Médio)

NÚMERO MÁXIMO DE PARTICIPANTES: 50 estudantes.

OBJETIVO(S):

Entender os três tipos de identidades (Iluminismo, sociológica e pós-moderna) situadas por Stuart Hall;
Ter acesso a biografia e obras literárias (poemas, crônicas e contos) da escritora Isabel Furini;
Saber identificar elementos das estruturas dos textos como fatores que definem a identidade da escritora como pós- moderna;
Assimilar as ideias da escritora, Isabel Furini por entrevista concedida via email no que toca a ideia de identidade nacional, local, comunitária no processo do estágio da globalização;
Entender a postura da escritora ao articular os contextos literários: antigo e de tradição numa realidade contemporânea.

EMENTA:

Identidade cultural pós-modernidade (sujeito do Iluminismo, sujeito sociológico e sujeito pó- moderno);
Uma síntese biográfica da escritora Isabel Furini contendo os principais dados pessoais e profissionais;
Uma breve análise sobre o livro “A BARCA DE RÁ - POEMAS DA TRAVESSIA DOS PERSONAGENS MORTOS PELOS PORTAIS DAS 12 HORAS”.
Estudos dos poemas (“PRANTO INDÍGENA” E “GENTIL GESTO”) e a crônica (“AMOR UNIVERSAL NA LÍNGUA”).
Exposição da entrevista com a escritora concedida via e-mail (a respeito da identidade pós-moderna considerando a questão da identidade nacional, regional, local e comunitária no mundo global).
Vídeo com duração de 2 minutos sobre exposição e lançamento do livro “Outros silêncios”.
Dinâmica de identidade e valores.

JUSTIFICATIVA: 

O presente trabalho tem como finalidade primordial desenvolver um pensamento crítico reflexivo a partir de uma articulação do saber teórico e prático no que diz respeito às identidades culturais abordadas por Stuart Hall considerando estudos realizados sobre a ou as identidades da escritora e poetisa Isabel Furini na perspectiva de uma identidade literária pós-moderna. Os referidos estudos foram realizados a partir de leituras e análises de algumas obras literárias (poemas, contos e crônicas assim como também entrevista semi-estrutural concedida via E-meil e leitura biográfica da autora).  É inquestionável a importância da literatura para a construção de identidades do sujeito enquanto intelectual principalmente no que toca à literatura regional, local, comunitária e nacional, todavia sabemos que o período histórico contemporâneo ou pós-moderno traz características bem pertinentes a uma aldeia global em que as culturas nacionais vão cada vez mais se hibridizando e dando espaço para múltiplas identidades de plurais referências. Sendo assim, este minicurso objetiva desenvolver um estudo articulado literatura, estudos culturais e identidade pós-moderna tendo como saber prático a realidade dos escritos literários (obras) da escritora e poetisa Isabel Furini com um olhar dirigido para a identificação de uma identidade pós-modernidade sem desprezar um posicionamento crítico acerca dos pontos negativos e positivos do fenômeno globalização na concepção de literatura e estudos culturais.

METODOLOGIA:

Aula do dia 20/02/2017, será ministrada em dois momentos o primeiro iniciará com uma dinâmica sobre identidade e valores, logo após será exposto em slides o conteúdo sobre tipos de identidades na visão de Stuart Hall (aula expositiva dialogada) intervalo de 10 minutos em seguida será exposto em slides à biografia da escritora Isabel Furini e entrega de uma cópia em papel ofício 4A da crônica (“AMOR UNIVERSAL NA LÍNGUA”) para a turma. E também exposição de um roteiro de leitura contemplados os aspectos internos e externos da obra. Será solicitado à turma que se divida em grupos com no máximo 10 componentes. Cada grupo vai ler a crônica e registrar em uma folha as impressões da obra que leva a autora a ser identificada como escritora de identidade pós-moderna. Será escolhido por cada grupo um componente do grupo para compartilhar para todos os participantes os registros feitos em grupos. A aula será finalizada com uma breve análise do livro em PDF “A BARCA DE RÁ - POEMAS DA TRAVESSIA DOS PERSONAGENS MORTOS PELOS PORTAIS DAS 12HORA" e disponibilizada o link o qual o livro pode ser acessado para os participantes lerem como atividade extraclasse.
Aula do dia 21/02/2017, será ministrada em dois momentos o primeiro os participantes vão expor suas impressões sobre a leitura do livro sugerido como leitura extra classe, logo em seguida será exposto em slides uma entrevista semi estrutural  feita pela ministrante do minicurso via email com a escritora. Depois da exposição da entrevista será aberto um momento de 30 a 40 minutos para discussão acerca do conteúdo da entrevista. Após esse momento será entregue aos participantes dois poemas intitulados “Pranto Indígena” e “Gentil Gesto” em papel ofício 4A para os participantes lerem e fazer uma análise acerca da identificação de identidade da escritora enquanto  nacional e global tendo como embasamento teórico os tipos de identidades situadas por Stuart Hall e a entrevista à qual se refere mais a questão de identidade regional,  local, comunitária e nacional articulando com o contexto atual da globalização. O encerramento da aula se dará com a exposição de um vídeo o qual a escritora Isabel Furini falar sobre a publicação de mais um livro (“Outros Silêncios”) de sua autoria assim como também traz uma exposição de artes plásticas com o mesmo tema do título do livro.

EQUIPAMENTOS E MATERIAIS NECESSÁRIOS:
Data show, notebook, folha de papel ofício 4A.

LOCAL: Sala de aula B do setor I IFRN central
Avenida Salgado Filho, Tirol Natal-RN

DATA DO MINICURSO:
De 20 a 21 de fevereiro de 2017, no horário vespertino de 13h. 30 min às 17h. 30 min.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA:
Poemas: Pranto indígena, Chapéus e Gentil Gesto. Disponível em: https://www.facebook.com/comendadoraisabelfurini/ acessado em: 30 de jan de 2017.
Crônica: Amor universal na língua. Disponível em: Isabelfurini.blogspot.com acessado em 29 de Jan de 2017
Vídeo YouTube: exposição e lançamento do livro “Outros Silêncios” publicado em 10 de Jun de 2015. Entrevista concedida a TV educativa Paraná.
Livro: A BARCA DE RÁ - POEMAS DA TRAVESSIA DOS PERSONAGENS MORTOS PELOS PORTAIS DAS 12 HORA". PDF  Disponível em:
http://revistacazemek.blogspot.com.br/2017/01/livro-de-poemas-barca-de-ra.html: acessado em 26 de Jan de 2017.
GONÇALVES, Ana Maria e PERPÉTUO, Susan Chiode: Dinâmica de grupos na formação de lideranças, Ed. DP & A, 1998.
Livro em PDF Stuart Hall: Identidade cultural pós- modernidade. Disponível em:
https://comunicacaoeesporte.files.wordpress.com/2010/10/hall-stuart-a-identidade-cultural-na-pos-modernidade.pdf.
Biografia de Isabel Furini. Disponível em:
https://sitedepoesias.com/poetas/IsabelFurini, acessado em: 03 de fev. de 2017.

ANEXO:

PRANTO INDÍGENA
Cadê nossas pegadas
Nas areias do mundo?
Em um grande buraco serão enterrados
Nossos corpos
e chorarão às árvores, as estrelas e o rio.
Isabel Furini

GENTIL GESTO
No mundo globalizado
Vivemos famintos de palavras
e de amizades.
Traços sombrios percorrem as cidades.
Estranhos rostos subentendidos
na sombras das árvores das calçadas.
O medo agita os corações.
De repente, surge um gesto amistoso
e é reorganizado o ritmo das emoções.
Isabel Furini

CHAPÉUS
Nos espelhos ancoram
oceanos de emoções
e podem refletir
sua essência nos espelhos,
mas preferem
espelhar-se no infinito.
Isabel Furini

OBS: (poema “CHAPÉUS” foi utilizado na dinâmica sobre identidade e valores)

AMOR UNIVERSAL NA LÍNGUA (CRÔNICA)
É assim como uma amiga chama o fato de escrever frases positivas, repetir, enviar por e-mail, pelo Twitter, pelo Facebook, de maneira quase obsessiva, mas não resistir a uma opinião diferente. Muito amor, muita paz, muita boa vontade, até que alguém expresse uma ideia contrária a deles, nesse momento “o amor universal” que estava na língua cai fora e aparece o verdadeiro eu, com suas raivas, frustrações e limitações.
Pessoalmente acho invasivo alguém bombardear o e-mail e a página nas redes sociais de outra pessoa para divulgar as próprias ideias, sejam religiosas, políticas ou positivas. É o fanatismo de querer impor uma maneira de pensar aos outros. A máscara pode ser o amor universal, mas atrás da máscara está o desejo de impor um determinado ponto de vista.
Isso me faz lembrar uma tira cômica que vi há algum tempo. O primeiro desenho mostra dois grupos de pessoas em lados opostos de uma rua, ambos os grupos com cartazes dizendo “Paz”. No segundo momento, os dois grupos se encontram e brigam porque cada grupo acha que está divulgando a verdadeira paz.
Enfim, nesta época, além da ditadura da beleza, temos que suportar a ditadura da felicidade… Sim, porque há pessoas que exigem que os outros sejam felizes o tempo todo, como se isso fosse possível. Mas é só mexer um pouquinho na tinta das letras para ver o eu humano, limitado, frágil, impermanentemente buscando o carinho, a aprovação ou simplesmente o aplauso.

* Isabel Furini é escritora e poeta premiada, autora de "Escrevendo Crônicas: Dicas e Truques".

Dinâmica Identidade e Valores (poesia musica e crônica)
Finalidade: Consiste em ouvir uma poesia e/ou música para ajudar na introdução de um assunto ou de uma vivência subjetiva.
Material: Letra (cópia xerográfica ou mimeografada) de uma poesia ou canção.
Descrição da dinâmica:
Escolher uma poesia ou canção sobre o tema a ser trabalhado.
Dividir os participantes em grupos.
Cada um lê em voz baixa, murmurando.
Escolher a palavra que mais marcou, em cada estrofe.
Gritar essas palavras juntas, bem alto. Depois bem baixo, até se calar.
Andando, procurar sua “palavra-sentimento” com outra pessoa do grupo.
Explique, sinta, expresse, toque.
No seu grupo, responda o que você faria com esse sentimento-palavra trocada.
O grupo deve montar uma história com os sentimentos trocados e com a poesia recebida.
Cada grupo apresenta no grupão sua história de maneira bem criativa.
Buscar o que há de comum em todas as histórias.
Comentários:
Este trabalho leva à reflexão de um tema/assunto, abrindo um espaço para que as pessoas falem de um assunto sob diferentes olhares.
Contribui para o desenvolvimento da expressão verbal e do trabalho coletivo.

Fátima Gonçalves e  Luciane Terra

ENTREVISTA

Entrevistada: Isabel Florinda Furini (Escritora e poetisa)
Entrevistadora: Maria de Fátima Gonçalves (Professora e discente de pós-graduação).

 Profª: "As identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior de uma representação". Considerando essa afirmativa de Stuart Hall e sabendo que você já habitou em três países (Argentina, Colômbia e atualmente Brasil) você tem identidades nacionais e de qual país? Ou suas identidades nacionais são hibridizadas (surgimento de novas identidades multireferenciais)?
Esctª: Uma poesia de Mário Quintana pode responder a sua pergunta: “Não importa que a tenham demolido. A gente continua morando na velha casa em que nasceu”. Os primeiros anos de vida são os que formam a personalidade do ser humano. Você pode adquirir hábitos diferentes conhecendo outros países, seus usos e costumes, mas no mais profundo do ser, as primeiras lições e os primeiros exemplos recebidos estão sempre vivos e pulsantes.

Profª: É sabido que a literatura nacional, regional, local e comunitária são elementos importantíssimos para a construção da identidade intelectual do indivíduo. Considerando essa realidade qual a sua visão enquanto escritora no que tange às consequências da globalização?
Esctª: Já nos primeiros graus do ensino fundamental começamos a estudar a história da humanidade. Geralmente, aprendemos sobre guerras, como se levantaram e como caíram os impérios da antiguidade. A história da humanidade é permeada de violência. A globalização, apesar de receber inúmeras críticas, é um esforço para que o ser humano perceba que mesmo com as diferenças podemos conviver pacificamente com outros povos.
A literatura é um espelho do mundo e quando ele muda, a literatura também precisa ser modificada. A globalização exige que o escritor seja um observador arguto.  O mundo atual é veloz, dinâmico, que permite muita interação através das redes sociais. Consequentemente, a literatura também mudou suas características. Na literatura atual se fala de desconstrução do texto. O texto certinho ficou no passado. A preferência pelo tempo labiríntico (oposto ao tempo linear), a construção polifônica, o jogo linguístico, fala das diferenças com a literatura clássica. O miniconto, por exemplo, é típico desta época.
O escritor precisa reconhecer os elementos que mudam no mundo.  Nesta época de globalização o olhar do escritor precisa ser semelhante ao do psicólogo e do sociólogo, para que seus personagens espelhem as mudanças comportamentais da sociedade.

Profª: O mero fato da sua identidade enquanto escritora ser pó- moderna (não fixa, não unificada, não individual no sentido do eu ser o centro da razão, mas sim em processo contraditório e transitório, de plural identidade que tem o futuro como perspectiva de visão é não o passado este específico do sujeito da Identidade do Iluminismo ou tradição) não lhe impede de fazer articulações literárias com as identidades culturais do período histórico antigo e da tradição? Justifique.
Esctª: O homem faz parte dessa roda que é a história. O escritor não pode se fechar em seu mundinho, em seu espaço-tempo. Ele tem a possibilidade de alimentar seu mundo ficcional com elementos do passado ou do futuro. O importante é recriar o ontem, ou seja, trabalhar o texto para que o passado histórico se torne um passado ficcional. A crônica trabalha com elementos do dia a dia, mas o conto, o romance, a poesia, podem afastar-se do cotidiano e recriar mundos imaginários.

Profª: Qual o propósito comunicativo para com os leitores da sua obra "A BARCA DE RÁ - POEMAS DA TRAVESSIA DOS PERSONAGENS MORTOS PELOS PORTAIS DAS 12HORA"?
Esctª: A fantasia não pode ter limites. O autor precisa de liberdade para se mover no tempo e no espaço. Essa obra está construída de maneira polifônica. Existe união de elementos: A barca de Rá, (mitologia egípcia), o Coral que em cada capítulo interrompe a narrativa - lembra o teatro grego - e no final de cada capítulo aparece a fala de alguns personagens de livros marcantes, entre eles: “Pedro Páramo” de Juan Rulfo; Úrsula de “Cem Anos de Solidão” de Garcia Márquez,  Ofélia (de “Hamlet”) de Shakespeare, entre outros. O medo desses personagens é cair no esquecimento, morrer. A pergunta fundamental é. Se o mundo caminha para a exacerbação do consumismo e da tecnologia, será que os personagens resistirão ou morrerão?

Profª: Qual a intencionalidade da escritora ao trazer uma ficção literária dentro de outra ficção de um contexto da antiguidade e da tradição para um contexto contemporâneo?
Esctª: O mundo exterior foi mudado com a tecnologia. Mudou também nossa maneira de viajar, de vestir e de nos comunicarmos. Mas o ser psicológico teve poucas mudanças: os instintos, as emoções, continuam dominando a vida humana. Só que o homem aprendeu a racionalizar, a mudar as perspectivas. Por exemplo: se você está em um shopping e um homem com um revólver ameaça as pessoas, elas correrão sem pensar para onde estão indo. O instinto as levará a afastar-se o mais rápido possível do perigo. Todos correrão juntos: o ator famoso, a diarista, o respeitado juiz, a secretária, o pedreiro, o médico, a pedagoga, o desempregado... Pessoas de diferentes idades, sexos, condição econômica, social ou profissional terão a mesma atitude: fugir. É o comportamento imposto pelo instinto de sobrevivência. Ou seja, os instintos permanecem através do tempo. O egípcio antigo vivia a ficção de seus deuses, mas o homem moderno também vive uma ficção: a ficção da tecnologia e da invulnerabilidade. Procura segurança (isso é instinto), e sente-se seguro com uma conta bancária forte, com uma bela casa com muros, enfim, acha que está sempre enganando e driblando a morte. Nossa ficção contemporânea faz com que adolescentes corram o risco de se machucar e até morrer tirando selfies em locais perigosos. Isso porque o ser humano tem a capacidade de fabular, e esse poder fala ao ouvido do jovem que é preciso tirar uma foto especial para ter muitas curtidas. Essa selfie pode lhe dar visibilidade. Desejará o jovem ser aplaudido? Ser amado? Aquele homem que vivia no Antigo Egito não tinha celular, nem internet, mas também queria ser admirado e amado. Talvez alguns jovens morreram ao atravessar o rio Nilo nadando para despertar a admiração de seus amigos ou o amor de uma mulher.
Em síntese: o livro A barca de Rá tenta resgatar esse encantamento, essa ficção da qual todos fazemos parte.

Profª: Tem como você falar um pouco sobre os símbolos e as diferentes cores que compõem cada capítulo do livro?
Esctª: O símbolo que escolhi foi Amon-Rá, que é um símbolo solar. No centro está o Sol ladeado por duas serpentes, e pelas asas. Como era um dos símbolos do poder do faraó, decidi usá-lo ao iniciar cada capítulo. Para que a imagem não fique cansativa mudei as cores com um programa do computador. Mas foi só com essa finalidade, não tendo nenhuma relação com a simbologia do Amon-Rá. Na Mitologia do Antigo Egito o dia era dividido em quatro partes: o nascer do sol, o meio-dia, o pôr do sol e a noite. Os egípcios imaginavam que à noite o Sol viajava em um barco rumo ao leste. Nessa viagem ao mundo das sombras, tinham de lutar contra Apópis, a serpente do mundo inferior que tentava devorá-los. De manhã o Sol triunfante aparecia no céu e se iniciava uma nova jornada. Durante a noite a barca de Rá enfrentava diferentes desafios. Cada hora era representada como um portal. Nesse mundo criado pela imaginação dos egípcios coloquei os personagens de alguns livros. Eles são chamados para fazer parte da viagem. Cada um deles carrega a sina designada pelo autor. Cada personagem é um ser fixo, estático, criado por um escritor, mas possui o poder de desafiar a nossa imaginação e de nos emocionar.


Isabel Furini no lançamento de Vírgulas e outros Silêncios
                                                                           
BIOGRAFIA: Isabel Furini
Educadora e escritora, de nacionalidade argentina, escreve poemas desde criança. Suas poesias foram premiadas no Brasil, na Espanha e em Portugal. Publicou 35 livros, entre eles a Coleção \\\"A Corujinha e os Filósofos\\\" da Editora Bolsa Nacional do Livro, em 2006, \\\"Joana a Coruja Filósofa\\\" e \\\"O Grande Poeta\\\", para o público infantil. Publicou \\\"Os Corvos de Van Gogh\\\" e \\\", e Outros Silêncios\\\" (Poemas). Foi nomeada Embaixadora da Palavra pela Fundação Cesar Egido Serrano (Espanha); Embaixadora da Rima Jotabé, Espanha; recebeu Comenda Ordem de Figueiró e foi nomeada Embaixadora Internacional e Imortal da Poesia pela Academia Virtual de Letras, Artes e Cultura do Brasil, em 2015.

                                                                  ***
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