segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

NAMORAR UM GATÃO?

empre achei estranho relacionamento amoroso entre maturidade e juventude. Talvez com o tempo se imponha com força, e seja comum ouvir conversas como estas: “Estou despontada, pois meu namorado é mais velho que o namorado de minha mãe” ou “ a namorada de meu avô é mais jovem que eu”. Não sei a opinião do leitor, nem sou totalmente contra... às vezes dá certo. Conheço pessoalmente no mínimo dois casais nessa situação e são muito felizes. Se formos observadores veremos que geralmente – nem sempre, mas geralmente - o mais velho tem estabilidade econômica. Você já refletiu sobre o passo dos anos?.. Aos 15 a gente veste roupa tamanho P, depois vai passando para o M, imediatamente vêm o G, então é preciso o GG... depois do GG vem a cirurgia de estômago. Os anos nos deixam lentos para a ginástica, mas rápidos para o garfo. Parece que a gente vai se aperfeiçoando na arte do gourmet. Comida preenche o estômago e preenche o medo da solidão, medo do fracasso, medo do dentista... enfim comida é um preenchimento natural de estados emotivos variados. Tudo isso é para dizer que apesar de estar fora de forma e a pesar de não ser rica, não conheço educador rico, mesmo assim eu fui almejada por um desses conquistadores de mulheres da maturidade. Em março do ano passado, eu estava concluindo a primeira aula da Oficina de Redação que ministro no em Curitiba, quando se aproximou um jovem bonitão. Aproximadamente 25 anos, cabelo preto, brilhante, propositadamente despenteado, barba sem fazer, o que lhe acrescia um encanto extra, além de contrastar com suas roupas, com camiseta vermelha e jean de griffe. Com um sorriso de ator premiado em Hollywood, apresentou-se dizendo que queria escrever um livro e necessitava de orientações. A conversa colou, porque amo falar sobre o tema, quando o rapaz lançou o anzol para ver se havia peixe no rio, não peixe-boi, mas peixe-burro: “professora, o que acha de nos encontrarmos outro dia para tomar um drink e falar mais sobre o assunto”. Sua intenção ficou mais exposta que joelho de escoteiro. Era isso! Pensei. Ele quer consultoria literária de graça. Que gracinha!.. Seu safado!... Sorri e falei: Claro, podemos sair, levarei meus filhos que tem sua idade, assim poderão falar de futebol e de garotas... O sorriso amarelo do rapaz demonstrou que havia entendido o recado. Por um instante os ombros desceram e pareceu abatido. Mas se recompus imediatamente e se despediu com um sorriso lindo, um sorriso de dar inveja aos atores de Hollywood. Talvez o recado dele fosse: “Veja a beleza que perdeu, sua coroa”. Eu saí da sala de aula cantarolando. Ao passar pelo corredor olhei-me no espelho e pensei: eu sou uma coroa feliz. Não posso evitar envelhecer, mas eu tenho a capacidade de manter o bom senso. É isso é muito bom mesmo!..

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A MEDUSA (poema de Isabel Furini)

As tranças da Medusa embranqueceram.
Escultura de Bernini
Escrevia nas estrelas
(eu só sonhava e não via o entorno).

Mas o tempo diminuiu meus vôos.
Rasgaram-se minhas asas de águia.
Hoje caminho pela terra árida
caminho sobre a areia e nas florestas
e escrevo sobre húmus letras envenenadas.

Antes, silenciava as dores do mundo,
meu coração era um morcego bem comportado.
Hoje grito (esperneio como criança malcriada),
as lutas são as mesmas,
MAS EU SOU OUTRA!

Envelheci no espelho, mas rejuvenesci
na ansiedade de viver sem pausas.

Tranças de Medusa nos cabelos.
Um Sol de inverno espia pelas janelas da adolescência,
inventa histórias, pantomimas.
Envelhece a pele com os anos,
a tristeza desenha indecifráveis símbolos na pele
(mapas da vida).
Dos versos surgem prezas de veneno,
pinças de escorpião
e sangram na terra ressecada pelo consumismo,
terra revoltada de crianças sem moradia e sem almoço.

Este poema profano cuspe maledicência,
grita com as baleias, afoga-se no pântano da memória
e ressurge inesperado.
Invade a sala, o espelho, e desenha na janela
a imagem de uma Medusa, adormecida.

Isabel Furini


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