quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Duplicidade - poema de Isabel Furini


DUPLICIDADE

Existem pessoas pacientes
que esperam calmamente
- são semelhantes
as tartarugas idosas

mas outras fazem lembrar das serpentes
enroladas
em alguma curva do caminho

suas palavras podem encantar
como o vinho fino
mas suas mordidas ferozes
(e inesperadas)
deixam profundas marcas
na superfície da alma.

Isabel Furini

Arte digital de Carlos Zemek





quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Bate-boca das flores - poema infantil de Isabel Furini


Bate-boca das flores
                                                                    (Poema recomendável a partir dos 9 anos)
A menina cortou o laço
Que unia o ramalhete de flores.

Zangada, falou a rosa:
- O laço foi cortado
Porque algumas flores invejosas
Não reconheceram
Que eu sou a mais formosa.

A begônia falou:
- Algumas flores se acham superiores
E tecem ilusões,
Mas a verdade é que a menina
Cortou o laço com uma tesoura.

A begônia foi vaiada
e a rosa foi admirada.

Porque no mundo das flores e dos homens,
muitas vezes,
predomina a ignorância.

Isabel Furini
Fotografia de Isabel Furini

sábado, 20 de outubro de 2018

Almas anfíbias (Poema de Isabel Furini)


Mulheres somos seres anfíbios
quase mitológicos

nos olhos temos registrados
a pesada carga do passado
e a secreta metamorfose da lagarta

as mulheres nascemos
com as marcas da imprevisibilidade impressas
no couro cabeludo
são marcas que só refletem nos espelhos quebrados

nossas almas anfíbias navegam no rio de Heráclito
e se aconchegam
sobre os espelhos quebrados
nas noites de Lua nova.

Isabel Furini


Trabalho da artista plástica Ivani Silva

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A escrita de Deus - Poema de Isabel Furini


A ESCRITA DE DEUS

Importa? não importa
se no meio do caminho
de repente você percebe
que as pedras alteraram o seu destino
e a sua vida é uma linha torta

porque Deus 
sempre escreve certo
sobre a areia, sobre as rochas
sobre as águas e nos recantos da alma.

Isabel Furini


terça-feira, 16 de outubro de 2018

O homem contemporâneo - poema de Isabel Furini


O HOMEM CONTEMPORÂNEO

o homem contemporâneo está perto do abismo
e fala
ele desconhece a supremacia do silêncio
e fala
e tenta esconder suas emoções no porão
e fala
fala
fala
fala
fala
e foge dos espelhos
para não ver a sua boca grande e o seu coração pequeno
mas a sua boca fala tanto e tão alto
que faz zimbrar os tímpanos do planeta.

Isabel Furini

Escultura do Museu Rosacruz de San José, Califórnia, USA.
Fotografia de Isabel Furini


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Bom dia, professor - poema infantil de Isabel Furini


Bom dia, professor

Hoje para brincar eu tenho
Uma rede de borboleta.

E também tenho uma caneta
No bolso da minha jaqueta.

E um poema que eu escrevi,
Porque agora sou poeta.

Professor, pelos seus ensinamentos
Quero dar meu agradecimento.

Isabel Furini


Arte digital de Isabel Furini

domingo, 14 de outubro de 2018

Caixas de Jacarandá - Poema de Isabel Furini


CAIXAS DE JACARANDÁ

Duas caixas foram construídas com madeira de jacarandá
em uma dormem as lembranças
e na outra a esperança

as duas caixas estão ocultas no porão da mente
perto do túnel que leva ao mundo subconsciente

à noite as lembranças fogem da caixa e dançam
enquanto dorme a esperança
de madrugada a esperança foge da caixa
para cantar entre as ondas do mar
e desenhar nas areias do futuro o poderoso verbo amar

mas enquanto a esperança voa
(e sem medo abençõa)
as lembranças abismadas serpenteiam no fundo do passado
onde os seres alienados dormem na escuridão.

Isabel Furini

Peça do Museu Rosacruz de San José, Califónria, USA.
Fotografia de Isabel Furini




quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Dúvidas - poema de Isabel Furini


DÚVIDA

Serão os poetas
remanescentes
de antigos
planetas?

E quando os poetas arquitetam seus versos
lutarão contra adjetivos adversos?

Quando os poetas escrevem ficam submersos
no mundo das emoções e dos pensamentos.

Serão os poetas os chefes supremos de suas obras
ou os editores de texto do universo?

Isabel Furini

Quadro de Carlos Zemek

domingo, 7 de outubro de 2018

O louco e a gaivota

O LOUCO E A GAIVOTA

O homem quer ser mais Ser”. Platão

Uma gaivota revoluteou
sobre a cabeça do louco
que estava sentado sobre uma rocha
olhando o mar

o louco olhou a gaivota
e começou a chorar
porque nesse instante conscientizou
uma limitação imposta pela natureza
:
ele percebeu que nunca conseguiria
voar sozinho

às vezes as coisas mais simples
nos fazem perceber nossas limitações
e as lágrimas revelam
o nosso oculto desejo de ser mais Ser.

Isabel Furini


Fotografia de Isabel Furini



sábado, 6 de outubro de 2018

As filhas de Eva - poema de Isabel Furini

AS FILHAS DE EVA

o clã das mulheres
é frágil e dividido
é semelhante a um vestido carcomido

o clã nunca adotou a atitude da colmeia
e enquanto uma mulher é ferida
as outras alardeiam

as mulheres não têm o apoio que precisam
e algumas se resignam e ficam submissas

se uma mulher é vítima de agressão
são muitas as mulheres que fecham o coração.

Isabel Furini

Fotografia de Isabel Furini - Rose Garden - San José - Califórnia






Multifacetado - Poema de Isabel Furini


ávido
como um lobo que devora sua presa

aflito
como um naufrago em alto-mar

fanático
como um povo em dia de eleição

alegre
como a chuva que molha as florestas

triste
como os funerais de um amigo querido

prolífero
como um vale ladeado por um rio

místico
como a noite que revela aspectos do infinito

o poeta é um ser multifacetado
cujos pés estão fincados no pantano
mas a sua alma matreira
persiste no desejo selvagem de conhecer o infinito.

Isabl Furini
Fotografia de Isabel Furini









quinta-feira, 4 de outubro de 2018

O Chapéu - poema de Isabel Furini


O CHAPÉU

O poeta experimenta o chapéu preto
e é perseguido por serpentes furiosas

o chapéu permanece inerte como uma pedra
mas o poeta inspirado pelo chapéu
retira os véus
ressignifica a  própria história
e mergulha no poço sem fundo das águas do inconsciente


o poeta percebe o poder do chapéu preto
esse chapéu sombreia os esqueletos
e desvenda os mistérios da poesia e da morte.

A dualidade da rosa - poema de Isabel Furini


A DUALIDADE DA ROSA

não é só pétala e perfume
buquê e sofisticação
a rosa também é espinho
e ao morrer
(já pútrida)
a rosa é transformada
em saudade e em solidão

o yin-yang é o segredo da natureza
por isso, onde há beleza
com certeza há escondida
pavorosa escuridão.

Isabel Furini

Rose Garden - Califórnia. Fotografia de Isabel Furini

Solidão de poeta - Poema de Isabel Furini

SOLIDÃO DE POETA

mergulha no abismo profundo do remorso
que não cessa

a espessa pele da culpa
contorna a sua alma
tenta escrever um poema
mas as lembranças o encurralam
está sozinho o poeta
e dialoga com seu passado em voz alta
enquanto quieto (deitado no parapeito)
um gato preto boceja.

Isabel Furini




Espaços - poema de Isabel Furini


ESPAÇOS

Sequestro os contornos dos beijos do primeiro amor
e da paisagem do parque

eu nada sei da aurora - mas reconheço
os movimentos
das sombras
e o ulular dos fantasmas do passado
que pululam no espaço interior

o lago, as árvores, as aves, a paixão
perambulam na minha memória
pois fazem parte de minha história
uma história contada no diário de bordo
de um barco que navega na constelação de Órion.

Fotografia de Isabel Furini

O Último Verso

O ÚLTIMO VERSO

- Você não tem  tino! -
reclamava minha mãe
e sem tino
eu fui construindo o meu destino
sobre uma rocha (ao lado do mar)
para observar a maré do mundo
com o olhar de um ser clandestino
e cumprir um antigo desejo
:
escrever o último verso da minha vida
na linha do horizonte
(entre o mar e a noite).

Isabel Furini

Fotografia de Isabel Furini



Eclipse - Poema de Isabel Furini


ECLIPSE


noite de eclipse lunar
a Musa da Poesia pacientemente espera
que o poeta escreva sobre o abismo interior
onde estão escondidos o remorso
e a culpa

o poeta dissimula o medo inconfessado
ele mantêm fechado o portão do inconsciente

a Musa o observa
e o poeta (sorrateiramente)
escreve um poema sobre as cartas do tarô.

Isabel Furini


Fotografia de Isabel Furini

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