terça-feira, 31 de maio de 2011

Revista ZK 2. 0 da Espanha


Leia na revista virtual ZK 2.0, da Espanha:

Taller Literario de Isabel Furini (oficina).

Cuentos de la abuela Xanino,Música, Cocina, El prólogo del héroe y mucho más.

http://zk.zonakeidell.com/zk20/paginas/index.php

segunda-feira, 30 de maio de 2011

ESCREVER LIVROS PARA CRIANÇAS?



Iniciará em 06 de junho (segunda-feira, a partir das 14:30 horas) no Solar do Rosário, uma oficina especial para pessoas que desejem escrever livros infantis.

Já orientei essa oficina em vários espaços, entre eles, no Centro Filosófico Delfos, e na Fundação Cultural de Curitiba (2004). O objetivo da oficina é orientar novos escritores, ajudá-los a compreender os mecanismos que tornam agradável uma história para crianças.

Na oficina analisaremos as técnicas para escrever contos infantis.

Como despertar o interesse de meninos e meninas? Os contos direcionados ao público infantil têm algumas características próprias: a oralidade, a fantasia, a curiosidade, o descobrimento do mundo, o olhar mágico.

Na primeira aula serão analisados alguns contos do ponto de vista dos símbolos. Uma maneira de descobrir a subjetividade e o estágio das crianças que escutarão ou lerão as histórias.

Serão analisadas: a teoria da escada, os elementos da composição literária, a plasticidade da narrativa, os elementos da composição literária.

A oficina, aberta para o público em geral, procura motivar e dar as ferramentas para escrever histórias infantis.

Tive a oportunidade de publicar livros para o público infantil, entre eles Joana a Coruja Filósofa, pela editora Sophos, e a coleção Corujinha e os filósofos, pela editora Bolsa Nacional do Livro, de Curitiba.

A oficina iniciará 06 de junho, e terá duração de dois meses. Será ministrada no Solar do Rosário, no Largo da Ordem. Essa casa senhorial é um cartão postal da cidade, é uma casa assobradada de arquitetura eclética porque, como em todas as casas senhoriais do fim do século XIX , havia uma mistura de estilos: colonial português, francês, alemão, acrescido de características neoclássicas como o frontão com suas volutas curvas, janelas e sacadas.

O Solar do Rosário de propriedade de Regina Casillo foi inaugurado em maio de 1992, e hoje é um complexo cultural que possui Galeria de Arte, Livraria e Editora, Cursos, Oficinas, Antiquário, Molduraria, Restaurante, Casa de Chá e Jardim de Esculturas, além de ceder seus espaços para lançamento de livros e eventos de arte, música, teatro, performances e arte educação.

Os interessados na oficina Como Escrever livros para Crianças podem solicitar mais informações pelo fone (41) 3225-6232, ou pessoalmente na rua Duque de Caxias, 04, Largo da Ordem, Curitiba.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O ESCRITOR, ESSE ESTRANHO
































Alguns acham que escritores são seres estranhos. Solitários, reflexivos, diferentes... O talento é inato. A natureza outorga ou não. Como as velhas fórmulas mágicas que as bruxas utilizavam em seus caldeirões - o dom e a técnica são os componentes primordiais que necessitam amalgamar-se para dar nascimento a esse estranho ser chamado escritor. Esse ser que tem um pouco de anjo e um pouco de demônio. Porque os escritores, todos eles, não importa seu tamanho, nem sua estatura - física e mental - são perigosos.




Um escritor é visto sempre como alguém diferente, como um inovador, um criador de casos, um questionador, um desobediente, um sonhador, um louco com idéias perigosas.Aos olhos do público, até o menor dos escritores - até um liliputiense - tem a coragem de querer deixar suas pegadas no mundo. Parafraseando Platão, podemos afirmar que o escritor "quer ser mais ser".

(Crônica de Isabel Furini publicada no Bonde).

segunda-feira, 23 de maio de 2011

TEMPO MÍTICO

TEMPO MÍTICO
Voam sobre os túmulos corvos torvos,
trovadores noturnos.

Uma gárgula de obsidiana voa no horizonte.

Morre o tempo no velho cemitério
o vigia fecha os portões,
mas seus olhos esquadrinham
os corvos torvos,
guardiões noturnos.

Os corvos grasnam,
as gárgulas voam
e o vigia sentado entre os túmulos
fuma um charuto e abre um livro de Alan Poe.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR?




Li há pouco tempo no Digestivo Cultural, (Os contistas puros-sangues estão em extinção, de Luiz Rebinski Junior, 04/05/11), que nesta época não há contistas “puros-sangues”, ou seja, dedicados realmente ao conto e com capacidade para criar tramas e personagens de impacto – capazes de fazer vibrar o leitor – pois a maioria edita um livro de contos para estrear no mundo literário, porém de olho no próximo romance. Isso é verdade. Contudo como toda regra tem exceções, hoje quero falar um pouco de um “puro-sangue” da literatura, de um contista que conhece profundamente a técnica ficcional, falaremos de Miguel Sanches Neto.


Seu novo livro de contos: Então você quer ser escritor? É tudo o que um escritor sonha em conseguir escrever. É excelente. É tão bom que pode até despertar a raiva de qualquer autor. Porque se pensarmos que o título é um desafio do tipo: se você quer ser escritor, escreva um livro como o meu, percebemos que haverá poucos, pouquíssimos, que aceitem esse desafio. O conhecimento de narratalogia, as construções de personagens, de espaços e de conflitos fazem de Então você quer ser escritor? (Record, 2011, 222 páginas) um livro invencível. Na realidade, quando chegamos ao último conto, que tem esse mesmo título, descobrimos que não é um desafio, é simplesmente uma história que fala de uma oficina literária, da lembrança de uma moça sensual e do choque com a realidade. Não é a lembrança de um grande amor, mas de uma paixão. Miguel Sanches Neto não escreve contos cor-de-rosa, ele dá a cada história uma cor especial. Uma gama riquíssima e com estrutura coesa.


Atrevo-me a dizer que alguns contos do livro, entre eles Árvores submersas, podem ser confrontados com os grandes contos da literatura mundial. Miguel Sanches Neto tem um ofício um pouco esquecido nesta época em que qualquer pessoa pode ir até uma editora por demanda e publicar um livro. O ofício de Miguel Sanches Neto é o de ser escritor.


Agora, se você for escritor será difícil não murmurar frases com raiva. Frases do estilo: Como esse maldito conseguiu escrever um livro tão bom?


Falando sério, se você quiser ler um livro de contos viscerais, escritos com a tensão que só grandes escritores conseguem, aconselho a leitura de Então você quer ser escritor? Sentirá a força arrasadora de um “puro sangue”, a força das histórias escritas com técnica e paixão.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O PODER DO LIVRO - Conto de Isabel Furini

Fotografia de Isabel Furini
O relógio de pêndulo deu oito badaladas. Um som metálico vibrou no ar. Roberto entrou na sala, colocou o paletó escuro e desbotado no espaldar da cadeira e sentou-se. Vestia uma camisa branca, com o colarinho gasto e um pulôver já fora de moda. Olhou o relógio. Um relógio enorme, antigo, de madeira escura e lustrosa, herdada do avô. Depois consultou seu relógio de pulso. Tinha a sensação de que um dos relógios estava defasado alguns segundos.

Dona Irineia saiu do elevador apressada e avançou rapidamente pelo corredor. Abriu a porta. Na parede, um cartaz que dizia: “ PROIBIDA A ENTRADA A AUTORES” em letras grandes e, em letras pequenas: “Deixe seus originais na portaria”. Entrou na recepção, ligou o computador e disse “bom dia” para o senhor Roberto.

– Dona Irineia... pode vir... – pediu ele.

Dona Irineia entrou, abriu as cortinas. Um raio de sol entrou pela janela de vidro, atravessou a metade da sala e caiu como uma torrente de luz sobre a escrivaninha de ébano escuro, cheia de papéis, livros, canetas, contratos. Roberto estava sentado diante da escrivaninha, na cadeira alta com espaldar de veludo vermelho. Às suas costas, o retrato antigo de seu avô, Florêncio, fundador da Editora RT.1.

Nos cantos da sala, caixas enormes, abertas, onde Irineia, todos os dias jogava, com indiferença, os originais que vinham pelo correio. Jogava os sonhos, as esperanças, as fantasias, as suposições, as ambições dos autores nas caixas de papelão. Cérebros, corações, fígados com vesículas apodrecidas
de tanta ansiedade na busca da fama ou do reconhecimento. Ela jogava tudo nas caixas de papelão.

Irineia pegou uma faca grande, com o cabo forrado em couro marrom e começou a abrir os pacotes do correio. Chegavam originais de todos os tipos e de todos os cantos deste enorme país. Romances, novelas, contos, crônicas, monografias, teses, livros técnicos e poesias. Chegavam obras dos lugares mais recônditos, das grandes cidades, do campo e dos povoados. Povoados que Irineia mal conseguia localizar no mapa e nem sabia que existiam.

Roberto pegou alguns originais para análise. Sua forma de escolher os livros que seriam publicados no semestre era, no mínimo, peculiar, para não dizer que era uma maneira estranha, extravagante, ou simplesmente, insana. O editor comum obedece a padrões de modernidade, originalidade, gosto popular ou elementos como mudança de perspectiva, quebra de tempo, jogo de palavras, ironia, tipos de discursos e outros.

Roberto era diferente. Como um alquimista em busca da pedra filosofal, Roberto colocou pó de enxofre nos dedos das mãos e manuseou as páginas de um romance, abrindo-o ao acaso. Leu um parágrafo. Tantos anos na Editora deram-lhe uma firmeza inigualável.

– Dona Irineia.... – chamou o patrão.

– Sim, senhor – respondeu ela, enquanto se levantava, empurrando a cadeira.

Ele respirou profundamente e disse com raiva:

– Essa febre de escrever tomou conta da população! Todo mundo quer escrever, é irritante!

Roberto acomodou os óculos grossos sobre o nariz proeminente e alisou seus cabelos grisalhos, longos e oleosos.

– Por favor – pediu Roberto, acendendo um cigarro – Isto é ridículo! Este cara já enviou mais de dez livros... Soltou a fumaça do cigarro no ar. – Ele ainda não entendeu que nunca vou publicar suas obras? Quando vir este nome no envelope nem abra. Jogue fora!

Irineia disse que enviaria a carta padrão. Carta padrão consistia num modelo, onde a obra do escritor era elogiada e a Editora pedia desculpas por não poder incluí-la, falta de espaço na programação. Isso evitava processos e discussões intermináveis com autores inconformados.

Leu uma página e ficou irritado, “vejo um escritor de pulso vacilante, tentando contar uma história, mas sem técnica suficiente. Um trabalho superior a suas forças, megalomaníaco” pensou. – Não é suficiente ter uma história interessante, deve ser bem contada. Deve ser: “Alento de fogo.” Dona Irineia colocou novos livros sobre a escrivaninha: “Sonhos”, “Heróis do presente”, “A Morte de Joana” “Chuva no telhado” e “Mundo em guerra”. Roberto empurrou os óculos grossos de armação preta e enfiou o nariz nos originais de “Heróis do Presente”. Gás Bucal, murmurou.

Fechou o livro e voltou a abri-lo. Leu um parágrafo. Fechou e tornou a abri-lo pela terceira vez.

- Não, eu estava certo na primeira classificação: Gás Bucal. Anote,dona Irinéia, Heróis do Presente, é Gás Bucal.

Sempre falava para a secretária qual tinha sido sua avaliação. Fazia anos que ela trabalhava para ele e já não sabia viver sem sua presença calada e submissa. Só uma vez Irineia levantara a voz, dois anos atrás, para defender um livro de amor e traição. Nunca antes, nunca depois.

Pegou o livro “Chuva no Telhado” – Roberto deixou fluir os originais encadernados em cor cinza pelas mãos sensíveis. Passou os dedos pelas bordas e o abriu. Leu uma página, este é pior.

Nos últimos três meses, só os originais de “Lago em Sombra” tinham sido aceitos para edição. Roberto tinha, à semelhança dos alquimistas, a busca incansável. Ainda lembrava seu avô dizendo: Existem dois tipos de editores, os editores alquimistas que procuram a pedra filosofal das palavras e os editores alquimistas que procuram simplesmente o ouro filosofal. Ele era do tipo um.

Fotografia de Isabel Furini
Seu avô tinha ideado um método infalível de classificar os originais. Tinha relação com o elemento ar. Talvez porque o avô Florêncio fosse de um signo de ar, Gêmeos. E toda sua vida tinha acreditado no destino e nas estrelas.

O método era o seguinte: Ruim, D – Gás estomacal. Bom – C: Gás bucal – Provinha da boca. Muito bom: B – Corrente de vento chega à garganta. Excelente: A – Gás Pulmonar . Obras de grande qualidade chegavam poucas. Extraordinário: AAA- ALENTO DE FOGO – O fogo do corpo e da alma.

Poucas obras “Alento de Fogo” havia recebido na vida. Na realidade, só recebera duas. Há trinta anos, seu avô ainda era vivo, quando receberam uma obra Alento de Fogo. O avô Florêncio estava doente, mas ao ler o texto recuperou-se totalmente e viveu mais cinco anos, com muita energia e vitalidade..

– Só o Alento de Fogo pode dar a vida... ou a morte... – disse o velho.

Dez anos atrás tinha reconhecido, ele sozinho, outra obra Alento de Fogo. Foi fascinante. A cada página que lia recuperava a vitalidade. Fez uma viagem ao redor do mundo. Nada de hotéis caros, de shoppings nem de restaurantes chiques. Caminhou pelas areias do deserto. Escalou as pirâmides, dançou na Ilha de Páscoa diante dos vigias.

Foi feliz durante dois anos. Mas a energia do alento também se esgota. Desde então, só procura o Alento. Há anos que traz os óculos grossos que escondem o desespero de sua alma na procura de um livro especial. Um livro que o tire da monotonia, da mesmice, das preocupações, do vazio da vida. Um livro revelador de um mundo paralelo que fale de suas expectativas, de seus sonhos, acertos e fracassos.

Roberto procurava na literatura, na palavra, a antiga arte da transmutação da mente. Arte anterior às técnicas da mente positiva ou da neurolinguística e outras ervas, que no seu entender, vendiam fantasias... das boas e das ruins, e algumas dessas fantasias eram terrivelmente nocivas à alma.

Roberto procurava na literatura a arte de entender o mundo. E a vitalidade para continuar a viver. A vitalidade que tinha perdido nos longos dias de leitura, na luta constante para analisar os textos com justiça. A análise e a luta com os textos sugaram sua energia. No fragor da contenda ficou míope e não conseguia enxergar a beleza da vida.

Roberto também escrevia. Ler e escrever. Escrever e ler. Sua vida tinha-se debruçado sobre os livros. Sua vida tinha-se esgotado entre letras impressas e folhas de papel. Os livros inéditos se pareciam. Eram como almas sem corpo. Todos pareciam iguais: papel branco oficio ou A4, letra New Roman ou Arial, corpo doze, duplo espaço.

Originais ruins que chegavam a suas mãos eram jogados no lixo. Não lia. Só abria três vezes o livro. Abria o livro, lia uma página e anotava a classificação. Abria de novo e lia dois parágrafos. Abria-o, pela terceira vez e só lia um parágrafo. Ele dava três chances. Só três, para cada candidato.

Originais ruins eram jogados no lixo. Não lia. E não era por falta de tempo. Nem por preguiça. Não lia porque lhe fazia mal, como a carne gordurosa o intoxicava. Intoxicava sua alma, embotava seus sentidos. Em síntese, diminuíam o ciclo de vida de Roberto.

Para Roberto, não ler lixo não era modismo, capricho, nem uma forma de esnobar a literatura. Era sobrevivência. Teve terríveis experiências, um livro mal escrito aumentava sua úlcera, desregulava os movimentos de diástole e sístole de seu músculo cardíaco.

Poucos sabiam que o alimento de Roberto era a literatura. Não só o alimento de sua alma, mas até certo ponto, a literatura era também o alimento de seu corpo. Até suas vísceras precisavam de leitura. Uma página ruim que lia, e seu corpo parecia desmembrar-se.

– Hoje não estou com sorte – pensou, enquanto terminava de ler o parágrafo. Só achou um livro

C. Classificação A e B, lia do princípio até o final. Os outros não, questão de saúde.
Ao final da tarde, recebeu a visita de seu primo José, dono de uma grande editora.

Fotografia de Isabel Furini
– Importa-se demais com qualidade, Roberto – recriminou-o – Marketing. Agora tudo é marketing. Eu dou para o departamento de marketing ver as possibilidades de venda, a gente nunca sabe quando tem um best-seller nas mãos...

– Lembra de nosso avô Florêncio?

– Você sempre foi o neto preferido dele.

– Vô Florencio sempre dizia que um livro é como uma panela de pressão. Tem ar quente... entende, José? Todo livro tem um ar... um alento... o livro ruim é como uma panela de pressão com ar gelado, esfria o sangue nas veias, pois não foi purificado pela arte. Panela de pressão apitando, enfumaçando, é sinal do fogo do artista. Esse fogo fica impregnado em cada página, em cada parágrafo, em cada frase, em cada canto do livro.

– Panela de pressão! – exclamou José e soltou uma forte gargalhada que atravessou o ar e bateu no relógio. O relógio deu algumas badaladas, longas, sem compasso, arrítmicas.

No dia seguinte, o céu nublou-se, a chuva bateu sobre os vidros da janela. Roberto continuara lendo. Três dias depois, voltou a sair o sol.

Nesta quinta-feira, Roberto chegou à Editora às 8 da manhã, como era habitual.

A luz estava acesa. Entrou. Dona Irineia estava de pé, falando com uma senhora baixinha e muito magra, de cabelos brancos unidos no alto da cabeça por um coque, ao estilo das avós antigas. Vestia com elegância uma blusa azul, com pequenos desenhos vermelhos e uma calça azul marinho.
– A senhora é autora – disse Irineia, sem jeito.

– Bom dia, Senhor . – disse a velhinha, fitando-o com seus olhos azuis, intensos.

– Meu nome é Maysa – apresentou-se e estendeu-lhe a mão direita para cumprimentá-lo, enquanto com a esquerda apertava os originais.

– A senhora não sabe ler? – perguntou Roberto, de forma ríspida, cruzando os braços.

– Sei, claro que sei ler – disse ela recolhendo o braço e pegando o livro com ambas as mãos.

– Pois veja, então, minha senhora! – gritou Roberto, abrindo a porta e assinalando o cartaz – Autores: Proibida a entrada.

– Senhor Roberto – disse Irineia, tentando ajudar a velha senhora – eu a deixei entrar, ela só quer falar sobre o livro. Ficou anos escrevendo e...

Roberto interrompeu sua fala. Pode deixá-lo...

Abriu a porta, entrou e sentou-se em seu lugar. Pela porta entreaberta, viu que a velha continuava em pé, imóvel.

– Fora daqui – disse entre dentes – fora, velhinha, fora. Eu não edito biografias de mortos ilustres, não edito livros de tricô, nem receitas culinárias. Escutou a velha despedir-se e o ruído da porta fechando-se. Roberto colocou enxofre nas pontas dos dedos e abriu um livro. Buscava a cada dia a áurica dos alquimistas, o mercúrio.

– Posso entrar? – perguntou dona Irineia.

Roberto ficou impressionado. Raramente ela entrava sem ser chamada.

– Peço que o senhor avalie este livro, por favor, senhor Roberto. Não tomará muito de seu tempo. Faça esse favor para mim – e colocou o livro sobre a escrivaninha.

– Está bem – disse ele, num gesto resignado, como um capitão depondo as armas.

Roberto abriu o livro. Começou a ler a página, o primeiro parágrafo e nas solas de seus pés sentiu um comichão. Segundo parágrafo e um calor começou a subir de seus tornozelos. Apertou o estômago, o batimento cardíaco chegou à garganta e transformou-se em admiração e em silêncio. Antes de terminar a página, viu um espírito, um dragão vermelho e preto. Um dragão enorme, que devorava as florestas da dúvida, derrubava as montanhas da presunção e arrasava os vales da mediocridade.

– Uma obra prima! – tentou gritar, mas não conseguiu. Sentiu um estouro na garganta... ou foi no peito? Eram cinco horas e o relógio de pêndulo começou a dar a primeira badalada.

Roberto sentiu que seu peito doía. Era uma dor dilacerante. Levou as mãos ao coração . Oh, Deus, pensou, e sentindo a morte chegar, não lamentou sua busca. Não os anos perdidos diante da escrivaninha, nem a janela fechada onde nunca entrava o vento. Não lamentou ter ficado sem amigos, em ter sido abandonado pela esposa. Não lamentou ser considerado estranho ou louco. A única coisa que lamentava era ter que partir da terra sem poder terminar de ler originais com “Alento de Fogo”. Alento de fogo, alento de fogo, repetia. Abriu novamente o livro e tentou ler...

– Alento de Fogo! – gritou. Abriu os olhos e a boca e o espírito do livro, o dragão invisível, transformou-se numa bola de fogo incandescente, foi arremessado de seu corpo e jogou-se sobre os originais do livro. Seu rosto caía pesadamente sobre a escrivaninha, enquanto seu espírito livre revoava sobre a mesa, nas asas do dragão. A asa esquerda do dragão bateu na janela, quebrando o vidro. Entrou uma lufada de ar. Respirou profundamente. Esse ar que entrava pelo vidro quebrado lhe fazia bem, muito bem, devolvia-lhe a vitalidade.

Abriu os olhos. – Vou chamar um médico – disse Irineia.

– Não, não... estou bem. Só preciso ler.

Irineia olhou-o com assombro. Roberto abriu o livro e leu a primeira página. Sorriu.

– Irineia... Irineia.... – disse com voz quase carinhosa. Irineia, estou lendo e pensando... já somos quase velhos, Irineia, passamos tantos anos trabalhando juntos... tantos anos. Olharam-se em silêncio.

– Quero dar a volta ao mundo. Quer viajar comigo, Irineia?

– Como sua secretária?

– Sim...Não! Não! Viajar comigo.... você sabe... você sabe, Irineia... Nós nos damos bem... nós gostamos dos mesmos livros.... vamos envelhecer sozinhos.... e envelhecer sozinho, é tolice, não acha? Vamos compartilhar nossos últimos anos? O que diz, Irineia?

Irineia chorava como uma criança que, no Natal, ganha um presente inesperado de Papai Noel. Só conseguiu enxugar as lágrimas. E sorrir.

Conto de Isabel Furini, recebeu Menção Honrosa no Concurso de Contos Paulo Leminski, realizado pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Toledo/PR.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

FERMENTO QUÍMICO

Fermento em pó!... Isso era o que Joanita precisava para fazer o bolo levantar. Da cozinha, pela porta entreaberta, olhou a sala. Seu marido estava jogado sobre o sofá, assistindo um programa chato. Tomás havia perdido o desejo de viver. E ela... Ela lembrou-se dos primeiros anos de casados. Quase não dormiam. E algumas vizinhas fofoqueiras reclamavam do barulho. Bons tempos. Idos. Agora era só pijama e televisão. Depois deitavam e cada um virava a cabeça para seu lado, bocejos e “até amanhã”.

De repente, o ruído da campainha. Era dona Dulce, a velhinha que morava no andar de baixo, vestia um robe rosa e estava sorridente. - Olhe este fermento – gritou.
- Obrigada, mas eu tenho fermento para o bolo - disse Joanita enquanto passava manteiga à forma.

- Não tem, não... – enfatizou a idosa. Um amigo de minha sobrinha é cientista e trabalha numa multinacional. Vendeu-me este novo produto por um preço absurdo, caríssimo!...
Joanita leu o rótulo do frasco: Viagra, ereções em pó.

- Dona Dulce! – exclamou acanhada. O rapaz roubou seu dinheiro. Isso não existe.
- Existe sim, disse a velha, quase ofendida. Existe. Eu comprei. Coloque no bolo e verá seu marido como dizer... mais... disposto. Joanita pegou o produto e colocou duas colheres no bolo.

- Não, se o que falam de seu marido for verdade, ele é molenga, duas colheres é pouco! Gritou dona Dulce. E arrebatando o produto das mãos de Joanita, jogou tudo o conteúdo no bolo.
Sorridente, a velha disse que gostaria também de experimentar o bolo, já que havia contribuído.
Joanita colocou o bolo no micro-ondas, e ambas sentaram na sala, ao lado de Tomás, para assistir a novela.

Antes de terminar a novela Joanita tirou o bolo do forno. Os três assistiram a um filme, enquanto comiam o bolo. E, a verdade seja dita, estava delicioso. Joanita sentiu-se estranha, desejo de rir, de transar, de gritar... Estranha mesmo.

Acordou seis da manhã nua, deitada no carpete da sala, a seu lado seu marido dormia com ar de felicidade, também nu. E no sofá... No sofá dona Dulce dormia. Nua!...

Joanita gritou ao vê-la.

-Shhhh... Vai acordar os vizinhos – disse dona Dulce. Levantou-se, colocou o robe e, abrindo a porta, sorridente exclamou: “Seu marido é um garanhão, minha querida, um garanhão!”

terça-feira, 3 de maio de 2011

Mês das noivas

O CASAMENTO

a rosa casou com a garrafa
debaixo da noite de São João
espelho na encruzilhada
que arrepio, meu pai

o gargalo em fogo
e a rosa embalsamada

Juliana Bernardo é graduanda em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Esse poema conquistou o 1º lugar no 24º Concurso Yoshio Takemoto (2006).



Luiz Antonio
TONY MARIGO,

Cantor, tecladista e violonista. Durante seis anos atuou no teatro profissional e integrou o show "Saudades do Brasil"com Elis Regina e Cezar Camargo Mariano no Canecão do Rio de Janeiro em longa temporada, após ter atuado na noite paulista apresentando shows com seu violão e teclados.
Na Europa, participou da inauguração da famosa casa de Shows de Lisboa, "Gold Lady", além de se apresentar em outras importantes casas em França, Suiça, espanha e Italia, firmando-se também como "entertainer" de unidades hoteleiras de destaque naqueles países. Após longa temporada na Ilha da Madeira (Portugal) retorna à sua cidade natal, São Paulo onde atua regularmente em buffets, desfiles de modas, hotéis , restaurantes, etc.
Em seu trabalho "Cantos de Virar Mundo", interpreta músicas românticas clássicas do repertório internacional norte-americano, italiano, latino-americano, português e da nossa MPB com incursões pelo rock acústico. Seu público é "sênior" preferencialmente das gerações 60/70.
Tudo para sonhar, ouvir, dançar...

Ele também canta em momentos especiais, por exemplo, festas de casamento.
Para apresentações contacte: igomar2009@gmail.com ou igomar2001@yahoo.com.br
Tel. (11) 3438-5817 .

Para escutá-lo no youtube:
http://www.bonde.com.br/?id_bonde=1-31-3LINKCHMtit=falando+de+literatura++mes+das+noivas
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