quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A MEDUSA (poema de Isabel Furini)

As tranças da Medusa embranqueceram.
Escultura de Bernini
Escrevia nas estrelas
(eu só sonhava e não via o entorno).

Mas o tempo diminuiu meus vôos.
Rasgaram-se minhas asas de águia.
Hoje caminho pela terra árida
caminho sobre a areia e nas florestas
e escrevo sobre húmus letras envenenadas.

Antes, silenciava as dores do mundo,
meu coração era um morcego bem comportado.
Hoje grito (esperneio como criança malcriada),
as lutas são as mesmas,
MAS EU SOU OUTRA!

Envelheci no espelho, mas rejuvenesci
na ansiedade de viver sem pausas.

Tranças de Medusa nos cabelos.
Um Sol de inverno espia pelas janelas da adolescência,
inventa histórias, pantomimas.
Envelhece a pele com os anos,
a tristeza desenha indecifráveis símbolos na pele
(mapas da vida).
Dos versos surgem prezas de veneno,
pinças de escorpião
e sangram na terra ressecada pelo consumismo,
terra revoltada de crianças sem moradia e sem almoço.

Este poema profano cuspe maledicência,
grita com as baleias, afoga-se no pântano da memória
e ressurge inesperado.
Invade a sala, o espelho, e desenha na janela
a imagem de uma Medusa, adormecida.

Isabel Furini


***

3 comentários:

  1. Poema magnífico! O final é apoteótico e grandioso! Enfim, uma maravilha!

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  2. Poema magnífico! O final é apoteótico e grandioso! Enfim, uma maravilha!

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  3. Muito obrigada, Ezequiel Francisco Silva.

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