terça-feira, 15 de dezembro de 2015

QUEM PODE SER ESCRITOR?

Hoje quero falar de um fato curioso, aconteceu com Gabriel García Marquez. Ele enviou o seu livro O enterro do diabo para a editora Losada, da Argentina, e recebeu os originais de volta com uma carta do crítico espanhol Guillermo de Torre, o qual o aconselhava: “Dedique-se a outra coisa”.

Também o livro Ninguém escreve ao coronel foi recusado por Roger Caillois, da editora francesa Gallimard. Então, não desista se seu livro for recusado, se sua obra não entrar em determinado salão. Gabriel García Marquez teve seus livros rejeitados por editoras, por que você deveria acertar na primeira? Manet, sim, o grande Manet, em 1874, teve seus trabalhos rejeitados pelo Salão Oficial dos Artistas Franceses. Se Manet foi rejeitado pelos organizadores do Salão, por que um jovem artista quer desistir se não for aceito no primeiro momento?

Tudo bem que é interessante a avaliação dos outros. Para os poetas, contistas e romancistas é importante a avaliação de pessoas dedicadas à literatura, para pintores e escultores é importante a opinião de críticos de arte e de artistas plásticos consagrados, mas se a avaliação não for elogiosa, nada de desistir. Talvez não falte a beleza na sua obra, talvez falte a sensibilidade de professores e críticos para perceber a estética de sua obra. É bom lembrar que se Gabriel houvesse acreditado no crítico Guillermo de Torre, famoso na época, o mundo perderia a chance de ler excelentes livros.

Eu presenciei uma professora de arte, tentando mostrar o seu grande conhecimento, numa exposição com quadros de mais de 50 artistas, lançar a frase venenosa: “Nesta exposição deixam entrar qualquer pessoa. Vejam esse quadro. Que horror!!!”. Uma das organizadoras estava perto e anunciou: “Esse quadro é de um artista famoso de Portugal. Premiado em muitos salões”. A professora de arte ficou sem saber o que dizer... "Ah... Eu não gosto de pintura moderna".

Isso mostra que em arte muitos falam, mas poucos sabem. Ou seja, se o quadro era de um iniciante, era muito ruim, mas como era de alguém famoso, está tudo ótimo!

Se até García Marquez apanhou de crítico, como vamos confiar neles?

Lembrou-me de uma frase da atriz Elizabeth Taylor, que dizia que o bom de ser velho é que a gente não dá tanto valor à opinião dos outros. Eu já vi muitas pessoas desistirem antes de tempo. Só porque alguém que se acha o dono do mundo, porque tem um certo nome em arte ou literatura, fala que o texto não é bom ou que o quadro não é bom. Por isso acho que as pessoas devem saber que grandes mestres das artes e da literatura avançaram, apesar das críticas. García Marquez, indiferente à opinião do grande crítico, continuou escrevendo. É tudo o que um artista deve fazer. Lavrar o próprio caminho. Agora que passei dos sessenta, penso que tola fui ao acreditar na opinião dos outros. No momento, só acredito em Deus e em mim mesma. Isso é tudo o que um literato ou artista precisa para trabalhar a sua obra com autenticidade, longe dos modismos de sua época e de seu entorno.
O grande espadachim Miyamoto Mushasi, quando os alunos perguntavam: É mais fácil vencer com espada curta ou longa? O mestre respondia: Nenhuma das duas, só espírito de vitória dá a vitória.
O espírito de vitória, nisso eu acredito, gente, acredito mesmo!

Isabel Furini é escritora e poeta. Autora do livro de poemas "Os Corvos de Van Gogh".
e-mail: isabelfurini@hotmail.com

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