terça-feira, 12 de novembro de 2013

CONFISSIONARIUM

                Recebemos o livro de poemas Confissionarium, de Marisete Zanon (Ed. Scortecci, 2013, 210 p). A autora escreve poesia desde os 12 anos de idade. Já foi premiada em vários concursos literários e é membro fundador da Academia de Letras de Foz de Iguaçu. Em 2003 publicou o seu primeiro livro, intitulado Um Cordão de Confissões, e agora nos surpreende com esse segundo livro de pomas, Confissionarium.
                A capa nos remete a uma confissão de tipo religioso, mas na realidade a autora se confessa diante de si mesma, ou talvez diante da Musa da Poesia. À medida que lemos os poemas, sentimos que o livro é uma expressão do eu da autora. Esse eu se espelha em cada página: é o amor, o sexo, a tristeza, a saudade, chorar o que nunca foi, denunciar a falsa alegria, o dissimulo. Nesse livro, Marisete Zanon se mostra íntegra: com suas emoções, seus pensamentos, suas ideias, seus sonhos, suas desilusões, seus desejos. É ela mesma se desdobrando em cada linha.
                Confessa: “sigo amputando sentimentos/ e quando fecho meus olhos/ é mais daquelas imagens/ que me vem à mente (...)
                Os versos de Marisete são contemporâneos, sua escrita é atual, de impacto. Vejamos o poema “Dós de alguns dias”:
tecia os horrores dos dias
nas bordas do espelho
que reverberava ais
em dó maior.
                No prefácio, Daufen Bach, falando da intensidade da obra de Marisete Zanon, afirma: “Esse livro retrata o amadurecimento poético, a poesia livre de convenção e a liberdade de compor. O termo ‘Confissionarium’, título do livro, inexiste! É uma incorreção da linguagem, uma licença que subjetivamente nos transporta para um universo intimista”.
                A autora revela um universo no qual reina o feminino, o amor, a paixão, o flutuar das emoções. Especialmente as leitoras vão se encantar com essa obra – é como correr as cortinas de um teatro e ver desfilar cenas da própria vida. A autora teve a inteligência e sensibilidade de transpor em palavras alguns fatos, imagens, ideias que fazem ou fizeram parte de suas vivências. O livro não é morno, é passional, como disse Daufen Bach: “intenso” – os poemas partem de imagens, de sensações, de emoções.
Marisete confessa no poema Personagens Poéticas: “A escrita me dilui em palavras/ me entrego demais, amo demais/sinto demais e possuo demais. Mas também odeio demais/ e confesso demais”. No mesmo poema declara: “Pago um preço alto/ por cada palavra escrita”.          
Muitas vezes lemos poemas tecnicamente corretos, mas sem vida. Talvez por isso Marisete surpreende. Ela se entrega à poesia, torna-se um personagem, passa a viver de poesia e pela poesia. Sua paixão poética e sua honestidade surpreendem neste mundo de mentirinhas que vivemos, no qual as pessoas fingem que estão sempre felizes e triunfantes. A civilização contemporânea parece ter se transformado em uma civilização de brinquedos. Tudo é jogo, brincadeira, consumismo. Não importa quem se machuca nesse caminho vertiginoso rumo ao nada. A nossa época é de hipocrisia e indiferença. Por isso, o livro de Marisete comove e até pode incomodar, ela revela que em seu coração coexistem o amor e o ódio. Revela também o instinto sexual feminino, revela amores e desilusões. É “o amor e o medo por baixo da pele”.
Confissionarium é um livro de poemas que desafia o leitor a tirar as máscaras e entender a própria subjetividade.


Isabel Furini é escritora e poeta premiada, autora do livro “Escrevendo Crônicas – Dicas e Truques”, da editora Instituto Memória. Contato pelo e-mail: isabelfurini@hotmail.com

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