Mostrando postagens com marcador Resenha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resenha. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Na Mesa cabe o Mundo - Uma viagem por Paris

Nesta época, na qual é tão fácil publicar um livro, é difícil encontrar um bom livro de crônicas. Ou seja, um livro interessante e bem escrito. Por isso chama a atenção dos leitores o lançamento de Evandro Barreto, [b]Na Mesa Cabe o Mundo – De Paris ao bar da esquina,[/b] o gosto que a vida tem (Conexão Paris Editora, 2013, 134 p). O autor conseguiu imprimir um ritmo excelente às crônicas. Não é preciso esforço para realizar a leitura da obra – e isso é um trunfo para qualquer cronista.

Já o escritor americano Ernest Hemingway eternizou essa fascinação que a cidade de Paris desperta nas pessoas com o livro "Paris é uma festa", e Barreto, com um espírito mais prático, nos mostra a Paris da gastronomia requintada e até compartilha endereços para que os leitores viajantes possam conhecer esses locais.

A obra foi escrita de maneira estratégica, pois o autor desperta a curiosidade dos leitores falando de Paris, de gastronomia, de vinho, e até dando um pulinho na Inglaterra para informar em uma crônica que até Sherlock Holmes comia lá.

Vejamos um fragmento: "(...) Simpson’s-in-the-Strand. Integrado ao Hotel Savoy, de Londres, o Simpson’s existe desde 1828 e serve o roastbeef mais famoso do mundo, maturado por 28 dias e levado à sua mesa em carrinhos cobertos por grandes tampas de prata com mossas centenárias. O veículo é pilotado por um especialista no assunto, que parece trabalhar na casa desde a fundação".

Evandro Barreta dá uma pequena lista, para não cansar o leitor, de pessoas que passaram pelo local: "Segundo registros insuspeitos de Sir Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes era cliente assíduo".

As crônicas são ágeis e cativantes. Elas convidam à leitura. A linguagem é clara e o mérito de Barreto é não se deter demais nos assuntos. São textos de viagens e têm o movimento, a cor, o entusiasmo de uma viagem: "... antes de tomarmos na estação de Saint Pancras o trem que nos conduziria de volta a Paris em duas horas e poucos minutos, pelo Euro-tunnel." Podemos perceber nesses pequenos fragmentos que a escrita acompanha o ritmo das viagens. Lendo surge a sensação de estar visitando esses locais, seja pela primeira ou pela vigésima vez.

O viajante não é só o autor, mas também o leitor. Sim, o leitor é o convidado especial, ele contempla paisagens, saboreia bebidas, reconhece o sabor da boa gastronomia. "Meu caso de amor com os mexilhões começou na infância... Mais tarde vieram os mariscos da Catalunha". Barreto sabe cativar o leitor, fazê-lo viajar nas palavras. Acontece que ele é publicitário e conseguiu passar o dinamismo e o olhar atento dos profissionais da publicidade aos textos.

Se você está acostumado a viajar ou se está preparando a primeira viagem à Europa, esse livro é leitura obrigatória. E se quer visitar esses locais com a imaginação, o livro também proporciona referenciais, dados, pequenos detalhes que ajudam a fazer a viagem maravilhosa. E talvez o mais importante é que terminamos a leitura com aquele desejo de ler novamente algumas das crônicas. Como um bom vinho o sabor dos textos permanece na memória.

 "Na mesa cabe o mundo" tem um trabalho gráfico aparentemente simples, mas muito bem elaborado e revela a técnica usada no livro: simplicidade, detalhes eloquentes, enumerações precisas, enfim, um livro feito com muito cuidado para conquistar leitores. O livro pode ser adquirido no site:http://www.conexaoparis.com.br/produto/na-mesa-cabe-o-mundo

Isabel Furini é escritora e poeta premiada. Contato: isabelfurini@hotmail.com

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

RESENHA: Refluxos, de Edson Valente

O autor publica seu primeiro livro de contos, Refluxos (Ateliê editorial, 2010, 80 páginas), porém não se trata de um iniciante, pois Valente já tem seu estilo bem definido. É um estilo moderno, com colocações sutis e comentários irônicos.

O leitor de contos clássicos sentirá falta de alguns elementos descritivos como detalhes do cenário, retratos de personagens e nomes que identifiquem esses personagens. Talvez Valente escolheu essa forma narrativa porque vivemos numa época de massificação, onde os nomes não diferenciam as pessoas. Os seres humanos se unem ou se separam por gostos e desgostos, por situações (algumas fortuitas), por parâmetros, ideologias, costumes, hábitos, enfim, o homem contemporâneo é talvez o mais solitário, o mais incompreendido, e, ao mesmo tempo, aparentemente o mais semelhante aos semelhantes – o efeito colateral da tão desejada igualdade. E esse olhar da condição humana pode ser percebido no livro.

A ironia, a monotonia, o cansaço, o “abacaxi” que aparece em qualquer situação, são focados pelo escritor. Edson Valente não está preocupado em descrever o espaço, mas em mostrar aspectos da vida das pessoas. Ele tampouco cria tipos, mas assinala características da forma de viver e de ser do homem contemporâneo e o transforma como o personagem do excelente conto Plano de previdência, um daqueles contos que se lê várias vezes, e em cada leitura podemos encontrar novos detalhes interessantes. Na história o homem se transforma em um ventríloquo mudo. Magnífico oximoro!
Vejamos um fragmento de Plano de previdência: “E, em um certo dia, o ventríloquo ficou mudo. De tanto fingir distanciamento, perdeu o movimento. Confundiu- se, parou de dirigir e de interpretar. Não se esforçou nem mesmo antes de se firmar na série, ser aclamado pelo público e, assim, tornar-se imprescindível para os produtores.”

Valente desenvolveu no jornalismo a capacidade de observação, de ver detalhes, situações. Sua linguagem é altamente literária e seu campo de expressão é a metáfora. O uso da metáfora como forma de olhar os acontecimentos, o mundo, torna algumas partes do livro altamente líricas, mas sem cair em pieguices, pois os assuntos quotidianos vistos com um olhar singular não permite esse tipo de quedas.

Em Refluxos encontramos críticas certeiras e irônicas, como, por exemplo, “Adotou um papel para o qual se adequava perfeitamente – e, tarde demais, descobriu que era, em essência, aquele papel.

A metáfora já está no nome Refluxos – (vejamos fragmentos do conto Inanição): “Ele fica pesado, uma má digestão crônica, e começam a sair umas substâncias viscosas de sua boca (...). Até que um dia tudo escapa de uma vez, em uma só golfada. Um soco duro e impiedoso, e depois do atordoamento inicial tentamos recuperar o equilíbrio e conter aquele vazamento, ver se ainda dá para segurar alguma coisa, um naco que seja, um naco de coisa alguma, uma beirada de qualquer lembrança, uma luz diferente, um brilho de fim de tarde, algum resto de calor. (...) E aí, então, o vazio final...”

Se o autor escolhe a metáfora para falar do mundo, podemos dizer que ao perceber frases como essas: “E aí, então, vazio final...” lembramos-nos de A Náusea do existencialista francês Jean-Paul Sartre. Evidentemente os dois livros não se relacionam no estilo, nem no tempo, mas tem sim um ponto de vista semelhante. Sartre, no romance A Náusea, constrói seu romance filosófico a partir dos sentimentos e da observação de ações banais de Antoine Roquentin. Refluxos convida o leitor a entender os refluxos, náusea, vômito, cansaço da vida que parece sem sentido. O livro se refere a um refluxo, vômito de todas as coisas que poderiam ter sido boas e não foram.

No conto O cachorro entrou na igreja: “Lá de dentro, muita luz, uma barricada de pennies, de cálices dourados, de casais repetindo “sim” incessantemente e outros tombando, juntos, depois de sorverem taças de licor de cicuta”.

No conto Mausoléu, “Enquanto eu mesmo não me tornar uma carcaça nauseante, algo estará resguardado. Minha memória mantém com fervor o local onde enterrei o tesouro, marquei um “x” ao pé de uma árvore frondosa que viverá bem mais que nós dois juntos”.

Refluxos é uma boa opção para ler, curtir e pensar.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Ex-libris (Resenha de livro)



Se você for bibliotecário ou se ama os livros e tem uma biblioteca na sua casa, se, como já falou Sócrates, prefere livros a comprar outros objetos bonitos, então precisa conhecer a obra Ex-Libris, da Ateliê Editorial, organizado pelo professor Dr. Plínio Martins Filho. A obra, cuidadosamente trabalhada, com fotografias de ex-libris, é uma delícia para bibliotecários, bibliófilos e curiosos.


Mas o que é ex-libris?

Vejamos primeiro a origem do nome: em latim, ex libris significa “dentre os livros de”, “da biblioteca de”.

De “Ex-Libris” (Ateliê, 2008, 196 páginas), extraímos um fragmento esclarecedor escrito por Dorothée de Bruchar:

“O ex-libris, sabe-se, é aquela etiqueta, colada geralmente nas primeiras folhas de um livro ou na contracapa, contendo o nome ou as iniciais do proprietário e podendo, através de uma imagem ou texto, indicar sua profissão, seus gostos, seu ideário, ou até (nem sempre) discreto lembrete a eventual surrupiador da obra.

O ex-libris do desenhista e caricaturista francês Gus Bofa (1883- 1968), por exemplo, indagava sarcástico: “Esse livro pertence a Gus Bofa. / O que está fazendo aqui?” Por meio do ex-libris é que os bibliófilos, ou os leitores que prezam os seus livros e se orgulham da sua biblioteca, costumam personalizar cada um dos seus volumes.”


A coleção publicada no livro foi cedida por José Luís Garaldi, quase toda formada por exemplares brasileiros. E nada de imitações! Amostragem expressiva de ex-libris genuínos, ou seja, daqueles criados por grandes artistas especializados no gênero, como o foram Agry, gravador dos ex-libris do Barão do Rio Branco. Uma verdadeira preciosidade.


Plínio Martins Filho, organizador, esclarece: “As reproduções mantêm, sempre que possível, as características dos originais, tais como tamanho, cor e variantes, tendo-se procurado identificar os titulares, incluindo-se, em acréscimo, dados bibliográficos e apontamentos sobre os artistas criadores, os gravadores e a técnica utilizada”.


O trabalho feito para ilustrar o leitor sobre as características dos ex-libris foi realmente um trabalho cuidadoso. O esmero é visível em cada página. Um belo livro, além de educativo. Merece um lugar de destaque em qualquer biblioteca.

Isabel Furini







terça-feira, 12 de novembro de 2013

CONFISSIONARIUM de Marisete Zanon

                




Recebemos o livro de poemas Confissionarium, de Marisete Zanon (Ed. Scortecci, 2013, 210 p). A autora escreve poesia desde os 12 anos de idade. Já foi premiada em vários concursos literários e é membro fundador da Academia de Letras de Foz de Iguaçu. Em 2003 publicou o seu primeiro livro, intitulado Um Cordão de Confissões, e agora nos surpreende com esse segundo livro de pomas, Confissionarium.
                A capa nos remete a uma confissão de tipo religioso, mas na realidade a autora se confessa diante de si mesma, ou talvez diante da Musa da Poesia. À medida que lemos os poemas, sentimos que o livro é uma expressão do eu da autora. Esse eu se espelha em cada página: é o amor, o sexo, a tristeza, a saudade, chorar o que nunca foi, denunciar a falsa alegria, o dissimulo. Nesse livro, Marisete Zanon se mostra íntegra: com suas emoções, seus pensamentos, suas ideias, seus sonhos, suas desilusões, seus desejos. É ela mesma se desdobrando em cada linha.
                Confessa: “sigo amputando sentimentos/ e quando fecho meus olhos/ é mais daquelas imagens/ que me vem à mente (...)
                Os versos de Marisete são contemporâneos, sua escrita é atual, de impacto. Vejamos o poema “Dós de alguns dias”:
tecia os horrores dos dias
nas bordas do espelho
que reverberava ais
em dó maior.
                No prefácio, Daufen Bach, falando da intensidade da obra de Marisete Zanon, afirma: “Esse livro retrata o amadurecimento poético, a poesia livre de convenção e a liberdade de compor. O termo ‘Confissionarium’, título do livro, inexiste! É uma incorreção da linguagem, uma licença que subjetivamente nos transporta para um universo intimista”.
                A autora revela um universo no qual reina o feminino, o amor, a paixão, o flutuar das emoções. Especialmente as leitoras vão se encantar com essa obra – é como correr as cortinas de um teatro e ver desfilar cenas da própria vida. A autora teve a inteligência e sensibilidade de transpor em palavras alguns fatos, imagens, ideias que fazem ou fizeram parte de suas vivências. O livro não é morno, é passional, como disse Daufen Bach: “intenso” – os poemas partem de imagens, de sensações, de emoções.
Marisete confessa no poema Personagens Poéticas: “A escrita me dilui em palavras/ me entrego demais, amo demais/sinto demais e possuo demais. Mas também odeio demais/ e confesso demais”. No mesmo poema declara: “Pago um preço alto/ por cada palavra escrita”.          
Muitas vezes lemos poemas tecnicamente corretos, mas sem vida. Talvez por isso Marisete surpreende. Ela se entrega à poesia, torna-se um personagem, passa a viver de poesia e pela poesia. Sua paixão poética e sua honestidade surpreendem neste mundo de mentirinhas que vivemos, no qual as pessoas fingem que estão sempre felizes e triunfantes. A civilização contemporânea parece ter se transformado em uma civilização de brinquedos. Tudo é jogo, brincadeira, consumismo. Não importa quem se machuca nesse caminho vertiginoso rumo ao nada. A nossa época é de hipocrisia e indiferença. Por isso, o livro de Marisete comove e até pode incomodar, ela revela que em seu coração coexistem o amor e o ódio. Revela também o instinto sexual feminino, revela amores e desilusões. É “o amor e o medo por baixo da pele”.
Confissionarium é um livro de poemas que desafia o leitor a tirar as máscaras e entender a própria subjetividade.


Isabel Furini é escritora e poeta premiada, autora do livro “Escrevendo Crônicas – Dicas e Truques”, da editora Instituto Memória. Contato pelo e-mail: isabelfurini@hotmail.com

sábado, 27 de agosto de 2011

Jornal MEMAI aborda terror nuclear



JORNAL MEMAI – Letras e Artes Japonesas lança sua sétima edição, tendo como tema de capa o pesadelo nuclear, que tem atormentado o imaginário japonês desde a 2ª. Guerra Mundial. Godzila, Akira Kurosawa, Masuji Ibuse são algumas obras da ficção japonesa que abordaram o tema.

O jornal também traz a homenagem da França ao Japão, com a instalação da Casa de Chá criada pela designer Charlotte Perriand; entrevista com o escritor Oscar Nakasato, que recebeu o premio Benvirá de Literatura pelo romance Nihonjin; e uma matéria sobre haicai, ilustrada com haicais de imigrantes e pelo o sumi-ê de Lucia Hiratsuka.

O JORNAL MEMAI é publicado trimestralmente e tem distribuição gratuita em Curitiba, Londrina, Maringá e São Paulo. Quem tiver curiosidade em conhecer a versão impressa pode pedir pelo email contato@jornalmemai.com.br.
O site, que está sendo atualizado, traz até a edição 05 do jornal.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

DE DOZE EM DOZE HORAS (RESENHA)


Esse livro de poemas de Alexandre França (editora 1801, 2010, 120 páginas) nos convida para observar a passagem das horas com os olhos do poeta. A subjetividade nos permite ver ambientes, pessoas, a própria cidade de um ponto de vista diferente: “ à noite mergulhar no fim mudo da linguagem, /modelar ruma raça...”.

A poesia de Alexandre França é moderna e imprevisível. Foge dos moldes, dos padrões. França nos leva por caminhos desconhecidos, abre diante de nossos olhos um mundo ignorado, uma dimensão poética que seduz pela beleza e assusta pela crueldade de alguns assuntos que aborda com singularidade. Vejamos o poema Moradia:

há uma cidade
no meu travesseiro,
um estado
embaixo da cama,
um país
entre a janela e a veneziana,
um mundo
num porta-retratos.
e você,
onde mora
aqui dentro
de casa?


Márcio Mattana enfatiza: “Embora Alexandre França nos ofereça um ciclo completo de manhã, tarde e noite, há sempre uma sensação meio noturna a brotar de seus versos. A manhã se mistura à madrugada e quase tudo é vivido dentro de quartos e salas, oscilando entre o sono e a insônia: “Há sempre alguém acordado por você”.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

RESENHA: hábitos do musgo

(Eiléan Ní chuilleanáin -Foto Divulgação).


O título do livro está escrito dessa maneira, sem letras em maiúsculo, talvez querendo fazer referência a um mundo escondido na cabeça da poeta Eiléan Ni Chuilleanáin. A Kafka Edições publicou em 2010 uma edição bilíngue, organizada e traduzida pela poeta e professora Luci Collin.



Eiléan Ní Chuilleanáin nasceu em 1942 na cidade de Cork, na República da Irlanda. Recebeu o título de Bachelor of Literature no ano de 1968. É uma das editoras-fundadoras da revista literária Cyphers. Poeta premiada, emprega um ponto de vista poético deslocado, enigmático.
No prefácio, Luci Collin assinala que “no panorama da poesia irlandesa contemporânea há um surpreendente número de poetas cuja importância literária vem sendo constantemente apontada pela crítica”. A alta qualidade literária dos livros de Eiléan é reconhecida pela crítica mundial.



No poema Antigas Recordações, encontramos o verso que serve de título ao livro:
Descobri os hábitos do musgo
que secretamente paralisa a pedra,
a ferrugem que suavemente rói as dobradiças
para manter a porta sempre aberta.
Tornei-me consciente da verdade
como a maré, impotente, subindo e descendo num certo ponto.

E, como podemos intuir nesse poema, a metáfora hábitos do musgo, talvez seja a força avassaladora e penetrante da poesia. Existe algo de metafísico permeando os poemas, um olhar não convencional, por isso a leitura de seu livro “hábitos do musgo” demanda várias releituras.
Em síntese hábitos do musgo é um livro de poemas profundo, enigmático, excelente para quem quiser penetrar num mundo subjetivo e enigmático.




Resenha de Isabel Furini publicada no ICNews.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ENTÃO VOCÊ QUER SER ESCRITOR?




Li há pouco tempo no Digestivo Cultural, (Os contistas puros-sangues estão em extinção, de Luiz Rebinski Junior, 04/05/11), que nesta época não há contistas “puros-sangues”, ou seja, dedicados realmente ao conto e com capacidade para criar tramas e personagens de impacto – capazes de fazer vibrar o leitor – pois a maioria edita um livro de contos para estrear no mundo literário, porém de olho no próximo romance. Isso é verdade. Contudo como toda regra tem exceções, hoje quero falar um pouco de um “puro-sangue” da literatura, de um contista que conhece profundamente a técnica ficcional, falaremos de Miguel Sanches Neto.


Seu novo livro de contos: Então você quer ser escritor? É tudo o que um escritor sonha em conseguir escrever. É excelente. É tão bom que pode até despertar a raiva de qualquer autor. Porque se pensarmos que o título é um desafio do tipo: se você quer ser escritor, escreva um livro como o meu, percebemos que haverá poucos, pouquíssimos, que aceitem esse desafio. O conhecimento de narratalogia, as construções de personagens, de espaços e de conflitos fazem de Então você quer ser escritor? (Record, 2011, 222 páginas) um livro invencível. Na realidade, quando chegamos ao último conto, que tem esse mesmo título, descobrimos que não é um desafio, é simplesmente uma história que fala de uma oficina literária, da lembrança de uma moça sensual e do choque com a realidade. Não é a lembrança de um grande amor, mas de uma paixão. Miguel Sanches Neto não escreve contos cor-de-rosa, ele dá a cada história uma cor especial. Uma gama riquíssima e com estrutura coesa.


Atrevo-me a dizer que alguns contos do livro, entre eles Árvores submersas, podem ser confrontados com os grandes contos da literatura mundial. Miguel Sanches Neto tem um ofício um pouco esquecido nesta época em que qualquer pessoa pode ir até uma editora por demanda e publicar um livro. O ofício de Miguel Sanches Neto é o de ser escritor.


Agora, se você for escritor será difícil não murmurar frases com raiva. Frases do estilo: Como esse maldito conseguiu escrever um livro tão bom?


Falando sério, se você quiser ler um livro de contos viscerais, escritos com a tensão que só grandes escritores conseguem, aconselho a leitura de Então você quer ser escritor? Sentirá a força arrasadora de um “puro sangue”, a força das histórias escritas com técnica e paixão.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Refluxos, de Edson Valente












O autor publica seu primeiro livro de contos, Refluxos (Ateliê editorial, 2010, 80 páginas), porém não se trata de um iniciante, pois Valente já tem seu estilo bem definido. É um estilo moderno, com colocações sutis e comentários irônicos.





O leitor de contos clássicos sentirá falta de alguns elementos descritivos como detalhes do cenário, retratos de personagens e nomes que identifiquem esses personagens. Talvez Valente escolheu essa forma narrativa porque vivemos numa época de massificação, onde os nomes não diferenciam as pessoas. Os seres humanos se unem ou se separam por gostos e desgostos, por situações (algumas fortuitas), por parâmetros, ideologias, costumes, hábitos, enfim, o homem contemporâneo é talvez o mais solitário, o mais incompreendido, e, ao mesmo tempo, aparentemente o mais semelhante aos semelhantes – o efeito colateral da tão desejada igualdade. E esse olhar da condição humana pode ser percebido no livro.

A ironia, a monotonia, o cansaço, o “abacaxi” que aparece em qualquer situação, são focados pelo escritor. Edson Valente não está preocupado em descrever o espaço, mas em mostrar aspectos da vida das pessoas. Ele tampouco cria tipos, mas assinala características da forma de viver e de ser do homem contemporâneo e o transforma como o personagem do excelente conto Plano de previdência, um daqueles contos que se lê várias vezes, e em cada leitura podemos encontrar novos detalhes interessantes. Na história o homem se transforma em um ventríloquo mudo. Magnífico oximoro! Vejamos um fragmento de Plano de previdência: “E, em um certo dia, o ventríloquo ficou mudo. De tanto fingir distanciamento, perdeu o movimento. Confundiu- se, parou de dirigir e de interpretar. Não se esforçou nem mesmo antes de se firmar na série, ser aclamado pelo público e, assim, tornar-se imprescindível para os produtores.”

Valente desenvolveu no jornalismo a capacidade de observação, de ver detalhes, situações. Sua linguagem é altamente literária e seu campo de expressão é a metáfora. O uso da metáfora como forma de olhar os acontecimentos, o mundo, torna algumas partes do livro altamente líricas, mas sem cair em pieguices, pois os assuntos quotidianos vistos com um olhar singular não permite esse tipo de quedas.

Em Refluxos encontramos críticas certeiras e irônicas, como, por exemplo, “Adotou um papel para o qual se adequava perfeitamente – e, tarde demais, descobriu que era, em essência, aquele papel.”

A metáfora já está no nome Refluxos – (vejamos fragmentos do conto Inanição): “Ele fica pesado, uma má digestão crônica, e começam a sair umas substâncias viscosas de sua boca (...). Até que um dia tudo escapa de uma vez, em uma só golfada. Um soco duro e impiedoso, e depois do atordoamento inicial tentamos recuperar o equilíbrio e conter aquele vazamento, ver se ainda dá para segurar alguma coisa, um naco que seja, um naco de coisa alguma, uma beirada de qualquer lembrança, uma luz diferente, um brilho de fim de tarde, algum resto de calor. (...) E aí, então, o vazio final...”

Se o autor escolhe a metáfora para falar do mundo, podemos dizer que ao perceber frases como essas: “E aí, então, vazio final...” lembramos-nos de A Náusea do existencialista francês Jean-Paul Sartre. Evidentemente os dois livros não se relacionam no estilo, nem no tempo, mas tem sim um ponto de vista semelhante. Sartre, no romance A Náusea, constrói seu romance filosófico a partir dos sentimentos e da observação de ações banais de Antoine Roquentin. Refluxos convida o leitor a entender os refluxos, náusea, vômito, cansaço da vida que parece sem sentido. O livro se refere a um refluxo, vômito de todas as coisas que poderiam ter sido boas e não foram.
No conto O cachorro entrou na igreja: “Lá de dentro, muita luz, uma barricada de pennies, de cálices dourados, de casais repetindo “sim” incessantemente e outros tombando, juntos, depois de sorverem taças de licor de cicuta”.

No conto Mausoléu, “Enquanto eu mesmo não me tornar uma carcaça nauseante, algo estará resguardado. Minha memória mantém com fervor o local onde enterrei o tesouro, marquei um “x” ao pé de uma árvore frondosa que viverá bem mais que nós dois juntos”.

Refluxos é uma boa opção para ler, curtir e pensar.


Essa resenha, de minha autoria, foi publicada no ICNews, em 03/02/2011.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Lançamento livro "A Sacerdotisa do Sexo"


Enoli Lara foi atriz, modelo e artista plástica. Ela foi batizada de "bunda pensante" nos anos 80 e agora esta lançando o livro [i]'Trilogia do Prazer – A Sacerdotisa do Sexo', (ed. Nova Razão Cultural).[/i] O lançamento será em 24 de fevereiro, na Livraria do Café, no Shopping da Gávea. Esse livro vai incomodar muita gente, pois Enoli conta suas aventuras com pessoas famosas e até com um membro da igreja. [i]"Fui iniciada por um padre. Era muito criança. Eu brincava de médico e já gostava..."[/i] Enfim, quem tiver interesse em fofocas e em conhecer detalhes da vida alheia ficará entusiasmado com 'Trilogia do Prazer – A Sacerdotisa do Sexo', pois Enoli promete revelar o seu passado "quente", e com detalhes.

domingo, 11 de abril de 2010

A LITERATURA NA POLTRONA (Resenha)


A Literatura na Poltrona, José Castello (Record, 2007, 204 páginas) é leitura obrigatória (e prazerosa) para jornalistas, estudantes. Escrito pelo crítico literário, jornalista José Castello, um dos maiores intelectuais do Brasil, a obra instiga o leitor a renovar sua leitura do mundo, seu olhar sobre o jornalismo, sobre os grandes autores.


A Literatura na Poltrona é um livro ágil, sem perder a profundidade. Castello tem o poder de ir até o âmago das questões. Discute a visão dos profissionais do jornalismo cultural. Apresenta histórias de autores célebres, e é um verdadeiro banquete para quem gosta de conhecer um pouco mais e saborear obras literárias de alta qualidade.


O autor conheceu Clarice Lispector, Vinicius de Moraes, João Cabral de Mello Neto e outros monstros sagrados da literatura. Também visitou locais onde viveram o escritor Franz Kafka e o prêmio Nobel de literatura chileno, o poeta Pablo Neruda. Com excelência, o jornalista, como um sábio cicerone nos mostra em Praga (capital da República Tcheca) e no Chile, os elementos que influenciaram os escritores e suas obras, mas, sobretudo, nos ensina a observar, a refletir, a fazer uma leitura de grandes autores e uma leitura mais ampla do mundo. O leitor tem a sensação de subir pela ladeira da montanha da literatura e contemplar um panorama deslumbrante. Um livro que tive prazer de ler e recomendo.


José Castello também publicou "Inventário das sombras" e "Fantasma" (ambos da Record), "O poeta da paixão" (Companhia das Letras) e "O homem sem alma/Diário de tudo" (Bertrand). Atualmente assina o Blog Literatura na Poltrona, http://oglobo.globo.com/blogs/literatura/ - e é colunista do suplemento Prosa & Verso, de O Globo.

domingo, 6 de dezembro de 2009

O LIVRO DO ESCRITOR Resenha de Terê Osmari B.


Sou autora de contos e histórias infantis. E adquiri e li O LIVRO DO ESCRITOR, de Isabel Florinda Furini. Aliás, um recurso ideal que encontrei para a realização de uma avaliação subjetiva das minhas produções literárias: foi e continua sendo, o meu grande aliado no momento das revisões e análises críticas das minhas escritas.

Por ter uma linguagem agradável e bem organizada, sempre que a ele recorro para buscar e ou compartilhar conhecimentos sobre o universo literário, tenho a sensação de estar falando diretamente com a autora. De fato, ela consegue acolher o leitor, por meio de uma escrita de fácil compreensão, objetiva e muito eficaz.

Aquela mania que às vezes temos de escrever parágrafos extensos, com frases alongadas, em alguns casos, complicando a compreensão do leitor – e, agora, não estou falando somente do autor profissional, mas também do autor professor e do autor aluno - esse é o livro ideal para aprimorarmos a nossa forma de organizá-los.

E, em consideração as tipologias distintas de textos literários, a autora nos possibilita compreender formas adequadas e ou características específicas que interagem os diversos gêneros e seus subgêneros, evitando a escrita de textos confusos, sem a presença de marcas específicas que garantem a boa qualidade e adequação textual.

Não temos dúvida que, as melhores propostas pedagógicas atuais são aquelas que valorizam a leitura e a escrita dos alunos, desde o processo inicial da escolarização. Já na educação infantil (professor leitor e escriba para os alunos). Nesse caso, aos profissionais da educação que desejarem adequar-se a esse sistema que valoriza a cultura escrita dos sujeitos, encontrarão, nesse livro, subsídios adequados a sua própria formação de escritor. Com isso, aprimorando a formação escritora de seus alunos.

Utilizei-me desse precioso material, não apenas para as leituras e as análises sobre as minhas produções literárias, mas também como fonte bibliográfica do livro Prolongando o prazer literário: o livro do professor, de minha autoria (ainda não publicado).

Então, para você que quer aprimorar a sua forma de escrever, recomendo a aquisição desse livro. Parabéns Isabel, por mais essa tão eficiente produção!

Tere Osmari Bagatini, é escritora e educadora. Terês Osmari B., já no ano de 2003, na função de coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação (SMOeste), foi autora do projeto Alfabetização com texto, um curso de formação continuada. Trabalho esse que, em 2004, resultou no Prêmio Além das Letras(promovido pelo Instituto Avisa Lá/SP), destaque na região sul do país.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O LIVRO DO ESCRITOR


O jornalista Eduardo Mattos escreveu uma apresentação para: O LIVRO DO ESCRITOR, de minha autoria, visa auxiliar novos autores no difícil caminho da comunicação literária.


Mattos inicia com uma pergunta: "O que é escrever bem? E como fazer um bom texto? Essas são duas das perguntas mais comuns entre estudantes de jornalismo, letras e publicidade e propaganda, profissões que adotam o bem escrever como ofício – se é possível dizer, hoje, que existe alguma atividade que não exija o texto claro, preciso, inteligível como ofício dentro do ofício.


Atribui-se ao chileno Pablo Neruda, um dos maiores poetas latino-americanos de todos os tempos, uma polêmica definição sobre o tema. "Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio, coloca as ideias". (...) De forma didática e coloquial, a autora mostra que escrever bem é possível mesmo àqueles que não receberam a graça divina de carregar na alma a genialidade de saber enfileirar as palavras de maneira perfeita, na ordem certa.


É uma obra indicada não só para quem tem a tarefa de escrever como principal ofício, mas para todos que querem se fazer entender. Neste contexto, a obra de Isabel excede o próprio nome. É o livro do escritor, do jornalista, do publicitário, do advogado, do engenheiro, do estudante..."


O Livro do Escritor foi publicado pela Editora Instituto Memória, de Curitiba.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

BICHO NA CABEÇA


“BICHO NA CABEÇA” é uma peça de teatro de Zeny Belmonte, escrita em três meses – que não tem nada a ver com jogo do bicho. A autora afirma que: “ A peça foi inspirada numa cena de rua que me fez refletir sobre a função da cabeça humana, a maior riqueza que recebemos ao nascer. E que por diferentes motivos, nem todos sabem para que serve. É uma crítica sutil e bem humorada à sociedade atual, que exercita muito pouco a capacidade de pensar e questionar, preferindo seguir as tendências do momento.” A peça flerta com o teatro do absurdo. Ressalta usos e costumes sem esquecer-se do humor. Sua função é provocar. O interessante é que não cai na armadilha de dar conselhos, ao contrário, deixa a cargo do espectador as reflexões sobre o uso que cada um faz da sua cabeça. Esse é o primeiro trabalho de Zeny Belmonte e surpreende pelos caminhos originais que percorre para criticar usos e costumes. Um trabalho rico em questionamentos, pois a autora acredita na inteligência das pessoas que assistem a uma peça teatral. Além de se emocionar e de dar boas risadas os espectadores precisam de mensagens que ajudem a questionar e melhorar o quotidiano. A Oficina de dramaturgia Trilhas, Palavras e Máscaras, ministrado por Paulo Afonso Castro, com apoio do fundo Municipal da Cultura –PAIC incentiva os alunos a expor seus trabalhos no final do curso. A leitura da peça Bicho na Cabeça aconteceu no dia 14 de maio, às 20 horas, no Palacete Wolf. Participaram da leitura: Luiz Reikdal, Tarciso Alencar Meira, Fernanda Rocha, Ângela Ribeiro, Virgínia Kleemann e o professor Paulo Afonso. A reação positiva do público foi tão evidente que o professor Afonso parabenizou sua aluna, Zeny Belmonte, e falou de seu desejo de assistir essa peça representada por grupos de teatro.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O LIVRO DO ESCRITOR

Estamos na época da democratização da escrita. Esse fato tem provocado um fenômeno mundial: muitas pessoas estão escrevendo e querem aprimorar o estilo. Por isso, cresce o número de oficinas para futuros escritores. Pois à medida que progridem no trabalho de escrever, os autores descobrem que dominar a técnica de escrita não é fácil. Durante uma década, quem escreve esta matéria, orientou ma Oficina Como Escrever um Livro, no Solar do Rosário, em Curitiba. Alguns alunos conseguiram terminar seus livros e publicá-los. Fruto desse trabalho é a obra: O LIVRO DO ESCRITOR, e-book, edição da Mesa do Editor. No livro são abordados assuntos fundamentais para os iniciantes, entre eles: a estrutura do conto, a construção personagens marcantes, como escrever livros para o público infantil, característica do romance, técnicas dos grandes mestres da literatura. No final de cada capítulo o leitor encontrará exercícios práticos para aprimorar o próprio estilo. “Narrar a história com maestria. Imprimir o tom certo gera preocupação. Inquietude. Muitas vezes, apesar de todos os esforços, permanece a sensação de que a obra não ficou perfeita. Precisa de alguns ajustes. E isso não acontece só com iniciantes. Autores consagrados – consagradíssimos - também aprimoram suas obras. Mudam palavras. Idéias. Imagens.” Esse trabalho árduo que o escritor realiza faz a diferença. Os autores consagrados elaboraram técnicas diferentes para aprimorar a escrita e, muitas delas, podem ajudar o iniciante a descobrir e desenvolve o próprio estilo. Esse é o objetivo do livro.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...