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quarta-feira, 17 de julho de 2024

O Mundo da Literatura e os Pirilampos de Ouro - Ensaio de Isabel Furini

Imagem gerada pela IA do Bing

Este ensaio visa ajudar os poetas e escritores iniciantes que procuram o seu lugar no mundo da Literatura.

O Mundo da Literatura e os Pirilampos de Ouro:

Durante a pandemia, recebi um e-mail de uma antiga aluna da oficina que ministrei durante 15 anos no Solar do Rosário, em Curitiba, chamada “Como escrever e publicar um livro”. Sempre me alegra receber notícias de antigos alunos, perceber como modificaram, como evoluíram com o tempo. Mas nessa oportunidade, fiquei receosa de responder e ferir o emocional da minha ex-aluna… No e-mail ela comentava, com muita alegria, que uma professora amiga dela lhe disse: “Você é a melhor poeta viva do Paraná!”. Minha ex-aluna me perguntava o que eu pensava… Era ela, realmente, a melhor poeta viva do Paraná? 

No primeiro momento fiquei sem respiração. Perguntei-me como uma professora pôde lançar uma frase tão poderosa e tão irresponsável como essa! 

Lembrei de uma frase do livro A Voz do Silêncio, de Helena P. Blavatsky: “Antes que a Alma possa ouvir, o discípulo tem de se tornar surdo (...) aos gritos dos elefantes em fúria como ao sussurro prateado do pirilampo de ouro.”

Li, pela primeira vez esse livro quando tinha 19 anos. O impacto foi tão profundo, e a beleza das metáforas revelavam tanta sabedoria, que repeti a leitura muitas vezes. É um livro inesgotável. Gostei muito quando nos orienta no sentido de não se deixar levar pelas vozes de crítica, nem pelos aplausos.

Minha ex-aluna, para seguir em frente, deveria vencer um murmúrio agradável aos ouvidos, uma mentira encantadora. O elogio não começava com “para mim”, como, por exemplo, expressam os apaixonados: “Para mim, você é a mais linda do mundo!”. A moça sabe que não é a mais linda do mundo, mas entende que para ele, na visão dele, ela é a mais linda.

Nesse caso, eu senti medo de responder. Não queria ferir os sentimentos de minha ex-aluna, mas também não poderia mentir para ela. Como dizer a uma poeta: “Você ainda está longe de ser a melhor do Paraná, pois há muitos poetas excelentes.”.

Escrevi: A melhor poeta do Paraná? Você pensa que é melhor que Luci Collin, Antonio Thadeu Wojciechowski, Alice Ruiz, Miguel Sanches Neto, Jussara Salazar, Ricardo Corona, Barbara Lia, Célia Musilli, Estrela Leminski, Leopoldo Comitti, Etel Frota, Adriano Smaniotto, Adélia Maria Woellner e tantos outros poetas maravilhosos cujos nomes fogem de minha mente neste momento, mas sei que tem muitos mais… muitos. E imediatamente deletei o parágrafo. Poetas são seres sensíveis, não é bom ferir a alma de alguém que está sendo iludido.

Pensei que minha resposta não poderia ser “sim”, nem “não”. A abordagem deveria ser suave. Mas como deixar claro que ela não era a melhor, nem uma das melhores do Paraná, sem dilacerar os sonhos dela?

O problema é que se alguém acredita ser o melhor na sua área, não vai crescer mais,  achando que por estar no topo não precisa melhorar. Alguns pensam que um elogio só traz benefícios. Geralmente pode ajudar, mas um elogio falso tem o poder de  destruir um ser humano. 

Em uma das oficinas que ministrei em 2008 ou 2009, lembro de uma aluna que escrevia muito bem. Ela realmente se destacava, e um dos colegas nutria uma admiração exagerada pelo estilo literário da jovem. O administrador de empresas, inexperiente na área de Literatura, pensava que ela seria a próxima Clarice Lispector. Lembro-me que entraram em um grupo literário da internet (nessa época tinha bem menos grupos literários virtuais que hoje), e eu também fazia parte desse grupo. Ele apresentou um conto da menina elogiando exageradamente o texto, dizendo que ela era um talento e que quando publicasse o primeiro livro, com certeza, seria reconhecida no país, talvez até internacionalmente. As críticas dos membros do grupo foram aparecendo, todas negativas. Um criticou a falta de diálogos. Outro, achou as descrições detalhadas demais e cansativas, um outro não gostava de adjetivos e considerou que a narrativa ficou comprometida pois foram usados muitos adjetivos, e teve até um contista, que havia recebido vários prêmios, que caçoou da “próxima Clarice”!

No dia seguinte vi que a postagem havia sido deletada. Ela não voltou para aulas. Soube por outro aluno, que ela havia ficado muito deprimida, pois não esperava críticas negativas… Senti pena dela. O rapaz tentou colocar o trabalho dela em evidência, mas de maneira grandiloquente, e desta forma “os gritos de elefantes” foram mais fortes que os doces murmúrios dos pirilampos de ouro.

Honestamente, ensaiei várias respostas para o e-mail de minha ex-aluna. Então, decidi não dar opinião, mas dar orientações para que ela mesma pudesse entender que é muito difícil o caminho literário. Listei alguns dos sinais que poderiam ajudá-la a analisar o caminho que estava percorrendo. 

Alguns autores crescem e são chamados por grandes editoras para publicar seus livros; outros percebem que cresceram quando ganham prêmios importantes no Brasil ou no exterior; e alguns têm a alegria de ver seus livros analisados em teses de graduação, mestrado ou doutorado, ou seja, suas obras estão sendo estudadas.

Dias depois recebi um e-mail no qual a minha aluna se lamentava de ter-me enviado o primeiro e-mail, reconhecendo que seria arrogância pensar que era a melhor poeta do Paraná. Havia ganho alguns concursos literários, mas nunca recebera um prêmio importante. Nunca havia sido chamado por uma editora, e seus livros nunca haviam sido  objeto de nenhuma tese universitária. Ela mesma havia concluído que tinha muito a percorrer no caminho da literatura.

Ela falou isso para aquela professora-pirilampo, e a professora disse que a considerava a melhor poeta do Paraná, ainda que não fosse reconhecida, e que muitos artistas só foram reconhecidos depois que faleceram. Isso é verdade, mas não podemos esquecer que  reconhecimento depois da morte é uma exceção. 

O sonho de muitos poetas é chegar ao topo. Penso que também é importante o caminho. Penso também como a poesia entra e se instala na alma, como nos ajuda a viver, a suportar as tormentas. No meu caso, a poesia salvou a minha vida – literalmente. E ouvi muitas pessoas dizerem que a poesia as ajuda a viver, a preencher as horas de solidão, a vencer a depressão, a expressar amor. Ela nos permite revelar conteúdos desconhecidos do inconsciente. A poesia é uma parte oculta de nossa alma, está dentro de nós. Talvez o mais importante não seja ser o melhor poeta de nosso estado, do país, ou quiçá do mundo. Talvez, o mais importante seja simplesmente SER POETA.

Isabel Furini é poeta, escritora e palestrante, autora do livro de poemas “Dançando entre as estrelas”.

Contato: isabelfurini@hotmail.com


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

QUANDO UM CRÍTICO ENCONTRA A POESIA - Professor Robson Lima


Para um crítico literário o melhor presente é quando ele pressente que um bom poema vira clima. Falo isso porque fui fisgado por um poema clima muito bem construído pela poeta Isabel Furini.

É notável a diferença entre um poema feito com técnica e refinamento de um desabafo histérico on-line, on paper ou on voice, quando gritados no Passeio Público, por exemplo.

Desabafos histéricos financiados, inclusive, com o dinheiro público, gasto em péssimas estratégias de políticas ditas culturais. Esta é a minha opinião democrática e garantida pelo Estado Civil de Direito. Mas esqueçamos desta metuenda concepção de poesia, que rasteja por aí, e nos atenhamos ao que há de melhor.

Posto o poema para que o leiam e em seguida farei a análise crítica.

POESIA
os poemas impulsionam sonhos
alimentam as almas dos dragões
quebram antigos espelhos
invadem sentimentos no quadrante das ilusões
alagam os jardins para que as flores
naveguem em barquinhos de papel
gravem nas pedras do labirinto
textos sibilinos
escritos com o sangue envenenado do mundo globalizado

(choram as Musas
e chora o Minotauro no labirinto das palavras)

FURINI, Isabel. Poesia. Disponível em: Acesso em: 25 de setembro de 2015.

Quadro de Baldassare Peruzzi.
Quadro de Baldassare Peruzzi.
Ao nos depararmos com o título do poema "Poesia", já sabemos que se trata de um metapoema. Um poema que fala sobre si mesmo, sobre sua confecção ou sua finalidade.
Dou-me o luxo de fazer uma observação interessante, antes de prosseguir a análise. Notem que o título do poema é "Poesia", mas durante todo o texto o "eu lírico" fala sobre poema. Sim, há poema sem poesia e os há aos borbotões. Basta darmos uma circulada pela cidade. Poemas com corpo, mas sem alma, caminham por aí ao estilo Walking Dead. Mas estes poemas sem poesia não são o tema do poema em questão.
Consideremos, então, o fato de que o poema, objeto do argumento do "eu lírico" seja um poema com poesia: alma + corpo. Somente um poema com poesia faria a viagem proposta pelo texto. Então, vamos à viagem!
Reparem os dois primeiros versos:
"os poemas impulsionam sonhos
alimentam as almas dos dragões"
Aqui os poemas são impulso e alimento. Ao impulsionar sonhos o poema vê uma lua no céu e se torna as asas de Ícaro. O sonho de voar é o que impulsionou o mitológico sonhador às alturas. Uma altura da qual muitas vezes não se pode escapar ileso.
O poema, neste primeiro verso, é um motor propulsor que, se obviamente compreendido, torna-se compressão e nos lança para o alto. O poema, com toda sua inutilidade, nos eleva e releva nossa condição mortal.
No segundo verso os poemas "alimentam as almas dos dragões". Bem, aqui o poema vê uma lua no mar. O dragão é um fenômeno mitológico bastante raro, pois é representado em diversas culturas. É a união entre a serpente que rasteja e a ave que voa.
Ao alimentar a alma desta dicotomia entre céu e terra, o poema encerra em si o papel de elo. Um poema elo entre céu e inferno, entre a lua do céu e a lua do mar. Um reflexo complexo de dois extremos em si mesmos.
A palavra "dragão" não está no poema à revelia. Ela marca com água e fogo, céu e inferno, lua e mar o reflexo dos extremos que se contemplam. A tensão de se contemplar o diferente e o antagônico é a marca do início do poema.
Em seguida, mais dois versos:
"quebram antigos espelhos
invadem sentimentos no quadrante das ilusões"
A tensão gerada pelos dois primeiros versos encontra seu ápice nos dois versos seguintes. Quando o "eu lírico" afirma que os poemas "quebram antigos espelhos" ele nos apresenta outra qualidade do poema: a iconoclastia do conteúdo e da forma.
Um espelho antigo refletira a imagem de sabe-se quantos rostos e desgostos. O espelho é o símbolo da realidade que não pode ser tocada. A realidade, Medusa, não pode ser encarada sob a pena nada penada de nos aturdir a tal ponto que podemos nos petrificar de espanto.
Lembremo-nos de que Perseu só consegue encarar a sua realidade Medusa pelo reflexo do seu escudo. O espelho é nosso escudo para a realidade. Vendo a realidade no espelho ela deixa de ser palpável e por isso torna-se menos aterrorizante.
O poema iconoclasta quebra o nosso escudo de reflexos e nos deixa perplexos diante da realidade nua. Ou, em outras palavras, o poema nos tira a segurança do conhecido e nos revela múltiplas realidades distorcidas.
Uma vez que o espelho está aos cacos, cada caco reflete a sua realidade eco. Não há mais uniformidade, mas deformidades. O poema iconoclasta deforma a realidade sabida e invade o quadrante das ilusões para penetrar os sentimentos.
Esta penetração não consentida, já que o poema não pede, mas "invade", no estupro dos sentidos, muda o olhar do leitor para as coisas. Isso fica evidente nos dois versos que seguem:
"alagam os jardins para que as flores
naveguem em barquinhos de papel"
Aqui a prosopopeia que permeia todo o poema e faz dele um sujeito ativo de seu próprio efeito alaga jardins. Perceba que o poema sai dos cacos do caos para construir novas imagens. As flores do jardim são metaforizadas em barquinhos de papel a navegar pelo alagadiço jardim da vida.
É um momento de trégua em que o poema se entrega à devassidão da metáfora. Sim, a metáfora é uma devassidão que transforma a coisa em outra coisa, prostituindo sentidos em cada esquina do poema, no fetiche de cada pezinho do verso.
O poder transformador do poema que hora nos aquieta, ora nos inquieta é sua forma-efeito de refletir extremos. Após a tempestade draconiana dos dois primeiros versos e da quietude navegante do final da primeira estrofe, temos:
"gravam nas pedras do labirinto
textos sibilinos
escritos com o sangue envenenado do mundo globalizado"
A navegação se transforma em gravação. O poema tenha forma fixa ou não, seus sentidos são deformados e lança o leitor em um labirinto de possibilidades, molhado pelas previsões das Sibilas.
As Sibilas eram deidades romanas que tinham o dom da profecia. Os poemas, com suas possibilidades deifobas, deixam gravados os descaminhos labirínticos de uma humanidade que vive em um mundo globalizado.
Interessante notar que, neste verso, a insistente repetição da consoante sibilante [S] provoca um som semelhante a um pedido de silêncio. Um silêncio sibilante de Sibila que profetiza sangue e envenenamento.
O mundo globalizado que fornece e fenece a tinta sanguínea para a escritura do poema não redime o poema de sua culpa. O poema não é uma vítima inocente de um processo de dissolução, pois ele mesmo quebrou o espelho e fez cacos da realidade.
Enquanto o mundo globalizado encurta distâncias o poema deforma sentidos. Há, então, uma simbiose entre envenenamento e poesia, ópio e espelho, céu e terra, corpo e alma.
Nesse processo simbiótico e caótico o poema termina:
"(choram as Musas
e chora o Minotauro no labirinto das palavras)"
Repare que ao usar o recurso dos parêntesis, a poeta transforma o final do poema em uma espécie de rubrica de uma peça dramática. As musas dos poetas comportados e sonhadores choram e chora o Minotauro, metáfora do "eu lírico", metade homem, metade animal a vagar pelo "labirinto das palavras". Um labirinto que não tem fim, semelhante ao labirinto de Creta e que, de forma discreta, revela que a única saída é por cima.
Apenas o poema elevado pode escapar da perdição do labirinto. Somente um voo cego e elevado, acima das paredes da realidade, acima dos alicerces da obviedade, acima dos aplausos da mediocridade, acima de qualquer deidade e sobre o império dos sentidos em cacos consegue libertar este "eu lírico" de seu típico final sinal de sina.
Bem, esta foi a minha análise do belo poema de Isabel Furini. É de poemas assim que Curitiba precisa. São poetas como Isabel Furini que fazem Curitiba se olhar no espelho e se molhar toda nua no bebedouro do Largo da Ordem que em silêncio se insinua a nos mostrar o perplexo reflexo da Lua.
Professor Robson Lima
Professor Robson Lima

Professor Robson Lima
Robson Lima, professor, palestrante e consultor de Língua Portuguesa.
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