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quarta-feira, 17 de julho de 2024

O Mundo da Literatura e os Pirilampos de Ouro - Ensaio de Isabel Furini

Imagem gerada pela IA do Bing

Este ensaio visa ajudar os poetas e escritores iniciantes que procuram o seu lugar no mundo da Literatura.

O Mundo da Literatura e os Pirilampos de Ouro:

Durante a pandemia, recebi um e-mail de uma antiga aluna da oficina que ministrei durante 15 anos no Solar do Rosário, em Curitiba, chamada “Como escrever e publicar um livro”. Sempre me alegra receber notícias de antigos alunos, perceber como modificaram, como evoluíram com o tempo. Mas nessa oportunidade, fiquei receosa de responder e ferir o emocional da minha ex-aluna… No e-mail ela comentava, com muita alegria, que uma professora amiga dela lhe disse: “Você é a melhor poeta viva do Paraná!”. Minha ex-aluna me perguntava o que eu pensava… Era ela, realmente, a melhor poeta viva do Paraná? 

No primeiro momento fiquei sem respiração. Perguntei-me como uma professora pôde lançar uma frase tão poderosa e tão irresponsável como essa! 

Lembrei de uma frase do livro A Voz do Silêncio, de Helena P. Blavatsky: “Antes que a Alma possa ouvir, o discípulo tem de se tornar surdo (...) aos gritos dos elefantes em fúria como ao sussurro prateado do pirilampo de ouro.”

Li, pela primeira vez esse livro quando tinha 19 anos. O impacto foi tão profundo, e a beleza das metáforas revelavam tanta sabedoria, que repeti a leitura muitas vezes. É um livro inesgotável. Gostei muito quando nos orienta no sentido de não se deixar levar pelas vozes de crítica, nem pelos aplausos.

Minha ex-aluna, para seguir em frente, deveria vencer um murmúrio agradável aos ouvidos, uma mentira encantadora. O elogio não começava com “para mim”, como, por exemplo, expressam os apaixonados: “Para mim, você é a mais linda do mundo!”. A moça sabe que não é a mais linda do mundo, mas entende que para ele, na visão dele, ela é a mais linda.

Nesse caso, eu senti medo de responder. Não queria ferir os sentimentos de minha ex-aluna, mas também não poderia mentir para ela. Como dizer a uma poeta: “Você ainda está longe de ser a melhor do Paraná, pois há muitos poetas excelentes.”.

Escrevi: A melhor poeta do Paraná? Você pensa que é melhor que Luci Collin, Antonio Thadeu Wojciechowski, Alice Ruiz, Miguel Sanches Neto, Jussara Salazar, Ricardo Corona, Barbara Lia, Célia Musilli, Estrela Leminski, Leopoldo Comitti, Etel Frota, Adriano Smaniotto, Adélia Maria Woellner e tantos outros poetas maravilhosos cujos nomes fogem de minha mente neste momento, mas sei que tem muitos mais… muitos. E imediatamente deletei o parágrafo. Poetas são seres sensíveis, não é bom ferir a alma de alguém que está sendo iludido.

Pensei que minha resposta não poderia ser “sim”, nem “não”. A abordagem deveria ser suave. Mas como deixar claro que ela não era a melhor, nem uma das melhores do Paraná, sem dilacerar os sonhos dela?

O problema é que se alguém acredita ser o melhor na sua área, não vai crescer mais,  achando que por estar no topo não precisa melhorar. Alguns pensam que um elogio só traz benefícios. Geralmente pode ajudar, mas um elogio falso tem o poder de  destruir um ser humano. 

Em uma das oficinas que ministrei em 2008 ou 2009, lembro de uma aluna que escrevia muito bem. Ela realmente se destacava, e um dos colegas nutria uma admiração exagerada pelo estilo literário da jovem. O administrador de empresas, inexperiente na área de Literatura, pensava que ela seria a próxima Clarice Lispector. Lembro-me que entraram em um grupo literário da internet (nessa época tinha bem menos grupos literários virtuais que hoje), e eu também fazia parte desse grupo. Ele apresentou um conto da menina elogiando exageradamente o texto, dizendo que ela era um talento e que quando publicasse o primeiro livro, com certeza, seria reconhecida no país, talvez até internacionalmente. As críticas dos membros do grupo foram aparecendo, todas negativas. Um criticou a falta de diálogos. Outro, achou as descrições detalhadas demais e cansativas, um outro não gostava de adjetivos e considerou que a narrativa ficou comprometida pois foram usados muitos adjetivos, e teve até um contista, que havia recebido vários prêmios, que caçoou da “próxima Clarice”!

No dia seguinte vi que a postagem havia sido deletada. Ela não voltou para aulas. Soube por outro aluno, que ela havia ficado muito deprimida, pois não esperava críticas negativas… Senti pena dela. O rapaz tentou colocar o trabalho dela em evidência, mas de maneira grandiloquente, e desta forma “os gritos de elefantes” foram mais fortes que os doces murmúrios dos pirilampos de ouro.

Honestamente, ensaiei várias respostas para o e-mail de minha ex-aluna. Então, decidi não dar opinião, mas dar orientações para que ela mesma pudesse entender que é muito difícil o caminho literário. Listei alguns dos sinais que poderiam ajudá-la a analisar o caminho que estava percorrendo. 

Alguns autores crescem e são chamados por grandes editoras para publicar seus livros; outros percebem que cresceram quando ganham prêmios importantes no Brasil ou no exterior; e alguns têm a alegria de ver seus livros analisados em teses de graduação, mestrado ou doutorado, ou seja, suas obras estão sendo estudadas.

Dias depois recebi um e-mail no qual a minha aluna se lamentava de ter-me enviado o primeiro e-mail, reconhecendo que seria arrogância pensar que era a melhor poeta do Paraná. Havia ganho alguns concursos literários, mas nunca recebera um prêmio importante. Nunca havia sido chamado por uma editora, e seus livros nunca haviam sido  objeto de nenhuma tese universitária. Ela mesma havia concluído que tinha muito a percorrer no caminho da literatura.

Ela falou isso para aquela professora-pirilampo, e a professora disse que a considerava a melhor poeta do Paraná, ainda que não fosse reconhecida, e que muitos artistas só foram reconhecidos depois que faleceram. Isso é verdade, mas não podemos esquecer que  reconhecimento depois da morte é uma exceção. 

O sonho de muitos poetas é chegar ao topo. Penso que também é importante o caminho. Penso também como a poesia entra e se instala na alma, como nos ajuda a viver, a suportar as tormentas. No meu caso, a poesia salvou a minha vida – literalmente. E ouvi muitas pessoas dizerem que a poesia as ajuda a viver, a preencher as horas de solidão, a vencer a depressão, a expressar amor. Ela nos permite revelar conteúdos desconhecidos do inconsciente. A poesia é uma parte oculta de nossa alma, está dentro de nós. Talvez o mais importante não seja ser o melhor poeta de nosso estado, do país, ou quiçá do mundo. Talvez, o mais importante seja simplesmente SER POETA.

Isabel Furini é poeta, escritora e palestrante, autora do livro de poemas “Dançando entre as estrelas”.

Contato: isabelfurini@hotmail.com


quarta-feira, 20 de maio de 2020

Livro Namida Taiko (Lágrimas do tambor)



Romance "Namida Taiko", Insight Editora. Esse livro narra uma história recheada de bom humor, drama, amor e dor, onde o taiko deixa de ser apenas um simples instrumento de percussão. Uma trama complexa baseada em honra e disciplina, que conta a saga de uma jovem lutando para conquistar seu sonho até as últimas consequências.

O livro "Namida Taiko" de Franccis Yoshi Kawa e Helena Douthe, está a venda nas Livrarias Curitiba, na editora Insight e na Amazon.

https://editorainsight.com.br/produto/namida-taiko/

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Estudos sobre a identidade cultural da poetisa Isabel Furini - por Maria de Fátima Gonçalves

INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE
CURSO: Literatura e Ensino (especialização)
DISCIPLINA DE PÓS-GRADUAÇÃO: Estudos Culturais
PROFESSORES: Francisco Leandro, João Batista e Maria Eliane
Discente: Maria de Fátima Gonçalves
ATIVIDADE AVALIATIVA DO MÓDULO IV: Minicurso
TITULO DE MINICURSO: Estudos sobre a identidade cultural da escritora e poetisa Isabel Furini na perspectiva de identidade cultural pós- moderna.
             I ENCONTRO SOBRE LITERATURA E ESTUDOS CULTURAIS
                                                         
                                                                  ***

PROFESSORA RESPONSÁVEL: Maria de Fátima Gonçalves

                                                           E-mail: fatimamare@bol.com.br

Mini Currículo: graduada em pedagogia (UFRN) pós graduanda (especialização) em Literatura e ensino (IFRN) professora e poetisa. Com poemas publicados no site Recanto das Letras e no Blog da escritora poetisa e educadora Isabel Furini.

INSTITUIÇÃO DO RESPONSÁVEL: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte

TÍTULO: Estudos sobre a identidade cultural da escritora e poetisa Isabel Furini na perspectiva de identidade cultural pós- moderna.

PÚBLICO-ALVO: estudante da Educação Básica (Ensino Médio)

NÚMERO MÁXIMO DE PARTICIPANTES: 50 estudantes.

OBJETIVO(S):

Entender os três tipos de identidades (Iluminismo, sociológica e pós-moderna) situadas por Stuart Hall;
Ter acesso a biografia e obras literárias (poemas, crônicas e contos) da escritora Isabel Furini;
Saber identificar elementos das estruturas dos textos como fatores que definem a identidade da escritora como pós- moderna;
Assimilar as ideias da escritora, Isabel Furini por entrevista concedida via email no que toca a ideia de identidade nacional, local, comunitária no processo do estágio da globalização;
Entender a postura da escritora ao articular os contextos literários: antigo e de tradição numa realidade contemporânea.

EMENTA:

Identidade cultural pós-modernidade (sujeito do Iluminismo, sujeito sociológico e sujeito pó- moderno);
Uma síntese biográfica da escritora Isabel Furini contendo os principais dados pessoais e profissionais;
Uma breve análise sobre o livro “A BARCA DE RÁ - POEMAS DA TRAVESSIA DOS PERSONAGENS MORTOS PELOS PORTAIS DAS 12 HORAS”.
Estudos dos poemas (“PRANTO INDÍGENA” E “GENTIL GESTO”) e a crônica (“AMOR UNIVERSAL NA LÍNGUA”).
Exposição da entrevista com a escritora concedida via e-mail (a respeito da identidade pós-moderna considerando a questão da identidade nacional, regional, local e comunitária no mundo global).
Vídeo com duração de 2 minutos sobre exposição e lançamento do livro “Outros silêncios”.
Dinâmica de identidade e valores.

JUSTIFICATIVA: 

O presente trabalho tem como finalidade primordial desenvolver um pensamento crítico reflexivo a partir de uma articulação do saber teórico e prático no que diz respeito às identidades culturais abordadas por Stuart Hall considerando estudos realizados sobre a ou as identidades da escritora e poetisa Isabel Furini na perspectiva de uma identidade literária pós-moderna. Os referidos estudos foram realizados a partir de leituras e análises de algumas obras literárias (poemas, contos e crônicas assim como também entrevista semi-estrutural concedida via E-meil e leitura biográfica da autora).  É inquestionável a importância da literatura para a construção de identidades do sujeito enquanto intelectual principalmente no que toca à literatura regional, local, comunitária e nacional, todavia sabemos que o período histórico contemporâneo ou pós-moderno traz características bem pertinentes a uma aldeia global em que as culturas nacionais vão cada vez mais se hibridizando e dando espaço para múltiplas identidades de plurais referências. Sendo assim, este minicurso objetiva desenvolver um estudo articulado literatura, estudos culturais e identidade pós-moderna tendo como saber prático a realidade dos escritos literários (obras) da escritora e poetisa Isabel Furini com um olhar dirigido para a identificação de uma identidade pós-modernidade sem desprezar um posicionamento crítico acerca dos pontos negativos e positivos do fenômeno globalização na concepção de literatura e estudos culturais.

METODOLOGIA:

Aula do dia 20/02/2017, será ministrada em dois momentos o primeiro iniciará com uma dinâmica sobre identidade e valores, logo após será exposto em slides o conteúdo sobre tipos de identidades na visão de Stuart Hall (aula expositiva dialogada) intervalo de 10 minutos em seguida será exposto em slides à biografia da escritora Isabel Furini e entrega de uma cópia em papel ofício 4A da crônica (“AMOR UNIVERSAL NA LÍNGUA”) para a turma. E também exposição de um roteiro de leitura contemplados os aspectos internos e externos da obra. Será solicitado à turma que se divida em grupos com no máximo 10 componentes. Cada grupo vai ler a crônica e registrar em uma folha as impressões da obra que leva a autora a ser identificada como escritora de identidade pós-moderna. Será escolhido por cada grupo um componente do grupo para compartilhar para todos os participantes os registros feitos em grupos. A aula será finalizada com uma breve análise do livro em PDF “A BARCA DE RÁ - POEMAS DA TRAVESSIA DOS PERSONAGENS MORTOS PELOS PORTAIS DAS 12HORA" e disponibilizada o link o qual o livro pode ser acessado para os participantes lerem como atividade extraclasse.
Aula do dia 21/02/2017, será ministrada em dois momentos o primeiro os participantes vão expor suas impressões sobre a leitura do livro sugerido como leitura extra classe, logo em seguida será exposto em slides uma entrevista semi estrutural  feita pela ministrante do minicurso via email com a escritora. Depois da exposição da entrevista será aberto um momento de 30 a 40 minutos para discussão acerca do conteúdo da entrevista. Após esse momento será entregue aos participantes dois poemas intitulados “Pranto Indígena” e “Gentil Gesto” em papel ofício 4A para os participantes lerem e fazer uma análise acerca da identificação de identidade da escritora enquanto  nacional e global tendo como embasamento teórico os tipos de identidades situadas por Stuart Hall e a entrevista à qual se refere mais a questão de identidade regional,  local, comunitária e nacional articulando com o contexto atual da globalização. O encerramento da aula se dará com a exposição de um vídeo o qual a escritora Isabel Furini falar sobre a publicação de mais um livro (“Outros Silêncios”) de sua autoria assim como também traz uma exposição de artes plásticas com o mesmo tema do título do livro.

EQUIPAMENTOS E MATERIAIS NECESSÁRIOS:
Data show, notebook, folha de papel ofício 4A.

LOCAL: Sala de aula B do setor I IFRN central
Avenida Salgado Filho, Tirol Natal-RN

DATA DO MINICURSO:
De 20 a 21 de fevereiro de 2017, no horário vespertino de 13h. 30 min às 17h. 30 min.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA:
Poemas: Pranto indígena, Chapéus e Gentil Gesto. Disponível em: https://www.facebook.com/comendadoraisabelfurini/ acessado em: 30 de jan de 2017.
Crônica: Amor universal na língua. Disponível em: Isabelfurini.blogspot.com acessado em 29 de Jan de 2017
Vídeo YouTube: exposição e lançamento do livro “Outros Silêncios” publicado em 10 de Jun de 2015. Entrevista concedida a TV educativa Paraná.
Livro: A BARCA DE RÁ - POEMAS DA TRAVESSIA DOS PERSONAGENS MORTOS PELOS PORTAIS DAS 12 HORA". PDF  Disponível em:
http://revistacazemek.blogspot.com.br/2017/01/livro-de-poemas-barca-de-ra.html: acessado em 26 de Jan de 2017.
GONÇALVES, Ana Maria e PERPÉTUO, Susan Chiode: Dinâmica de grupos na formação de lideranças, Ed. DP & A, 1998.
Livro em PDF Stuart Hall: Identidade cultural pós- modernidade. Disponível em:
https://comunicacaoeesporte.files.wordpress.com/2010/10/hall-stuart-a-identidade-cultural-na-pos-modernidade.pdf.
Biografia de Isabel Furini. Disponível em:
https://sitedepoesias.com/poetas/IsabelFurini, acessado em: 03 de fev. de 2017.

ANEXO:

PRANTO INDÍGENA
Cadê nossas pegadas
Nas areias do mundo?
Em um grande buraco serão enterrados
Nossos corpos
e chorarão às árvores, as estrelas e o rio.
Isabel Furini

GENTIL GESTO
No mundo globalizado
Vivemos famintos de palavras
e de amizades.
Traços sombrios percorrem as cidades.
Estranhos rostos subentendidos
na sombras das árvores das calçadas.
O medo agita os corações.
De repente, surge um gesto amistoso
e é reorganizado o ritmo das emoções.
Isabel Furini

CHAPÉUS
Nos espelhos ancoram
oceanos de emoções
e podem refletir
sua essência nos espelhos,
mas preferem
espelhar-se no infinito.
Isabel Furini

OBS: (poema “CHAPÉUS” foi utilizado na dinâmica sobre identidade e valores)

AMOR UNIVERSAL NA LÍNGUA (CRÔNICA)
É assim como uma amiga chama o fato de escrever frases positivas, repetir, enviar por e-mail, pelo Twitter, pelo Facebook, de maneira quase obsessiva, mas não resistir a uma opinião diferente. Muito amor, muita paz, muita boa vontade, até que alguém expresse uma ideia contrária a deles, nesse momento “o amor universal” que estava na língua cai fora e aparece o verdadeiro eu, com suas raivas, frustrações e limitações.
Pessoalmente acho invasivo alguém bombardear o e-mail e a página nas redes sociais de outra pessoa para divulgar as próprias ideias, sejam religiosas, políticas ou positivas. É o fanatismo de querer impor uma maneira de pensar aos outros. A máscara pode ser o amor universal, mas atrás da máscara está o desejo de impor um determinado ponto de vista.
Isso me faz lembrar uma tira cômica que vi há algum tempo. O primeiro desenho mostra dois grupos de pessoas em lados opostos de uma rua, ambos os grupos com cartazes dizendo “Paz”. No segundo momento, os dois grupos se encontram e brigam porque cada grupo acha que está divulgando a verdadeira paz.
Enfim, nesta época, além da ditadura da beleza, temos que suportar a ditadura da felicidade… Sim, porque há pessoas que exigem que os outros sejam felizes o tempo todo, como se isso fosse possível. Mas é só mexer um pouquinho na tinta das letras para ver o eu humano, limitado, frágil, impermanentemente buscando o carinho, a aprovação ou simplesmente o aplauso.

* Isabel Furini é escritora e poeta premiada, autora de "Escrevendo Crônicas: Dicas e Truques".

Dinâmica Identidade e Valores (poesia musica e crônica)
Finalidade: Consiste em ouvir uma poesia e/ou música para ajudar na introdução de um assunto ou de uma vivência subjetiva.
Material: Letra (cópia xerográfica ou mimeografada) de uma poesia ou canção.
Descrição da dinâmica:
Escolher uma poesia ou canção sobre o tema a ser trabalhado.
Dividir os participantes em grupos.
Cada um lê em voz baixa, murmurando.
Escolher a palavra que mais marcou, em cada estrofe.
Gritar essas palavras juntas, bem alto. Depois bem baixo, até se calar.
Andando, procurar sua “palavra-sentimento” com outra pessoa do grupo.
Explique, sinta, expresse, toque.
No seu grupo, responda o que você faria com esse sentimento-palavra trocada.
O grupo deve montar uma história com os sentimentos trocados e com a poesia recebida.
Cada grupo apresenta no grupão sua história de maneira bem criativa.
Buscar o que há de comum em todas as histórias.
Comentários:
Este trabalho leva à reflexão de um tema/assunto, abrindo um espaço para que as pessoas falem de um assunto sob diferentes olhares.
Contribui para o desenvolvimento da expressão verbal e do trabalho coletivo.

Fátima Gonçalves e  Luciane Terra

ENTREVISTA

Entrevistada: Isabel Florinda Furini (Escritora e poetisa)
Entrevistadora: Maria de Fátima Gonçalves (Professora e discente de pós-graduação).

 Profª: "As identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior de uma representação". Considerando essa afirmativa de Stuart Hall e sabendo que você já habitou em três países (Argentina, Colômbia e atualmente Brasil) você tem identidades nacionais e de qual país? Ou suas identidades nacionais são hibridizadas (surgimento de novas identidades multireferenciais)?
Esctª: Uma poesia de Mário Quintana pode responder a sua pergunta: “Não importa que a tenham demolido. A gente continua morando na velha casa em que nasceu”. Os primeiros anos de vida são os que formam a personalidade do ser humano. Você pode adquirir hábitos diferentes conhecendo outros países, seus usos e costumes, mas no mais profundo do ser, as primeiras lições e os primeiros exemplos recebidos estão sempre vivos e pulsantes.

Profª: É sabido que a literatura nacional, regional, local e comunitária são elementos importantíssimos para a construção da identidade intelectual do indivíduo. Considerando essa realidade qual a sua visão enquanto escritora no que tange às consequências da globalização?
Esctª: Já nos primeiros graus do ensino fundamental começamos a estudar a história da humanidade. Geralmente, aprendemos sobre guerras, como se levantaram e como caíram os impérios da antiguidade. A história da humanidade é permeada de violência. A globalização, apesar de receber inúmeras críticas, é um esforço para que o ser humano perceba que mesmo com as diferenças podemos conviver pacificamente com outros povos.
A literatura é um espelho do mundo e quando ele muda, a literatura também precisa ser modificada. A globalização exige que o escritor seja um observador arguto.  O mundo atual é veloz, dinâmico, que permite muita interação através das redes sociais. Consequentemente, a literatura também mudou suas características. Na literatura atual se fala de desconstrução do texto. O texto certinho ficou no passado. A preferência pelo tempo labiríntico (oposto ao tempo linear), a construção polifônica, o jogo linguístico, fala das diferenças com a literatura clássica. O miniconto, por exemplo, é típico desta época.
O escritor precisa reconhecer os elementos que mudam no mundo.  Nesta época de globalização o olhar do escritor precisa ser semelhante ao do psicólogo e do sociólogo, para que seus personagens espelhem as mudanças comportamentais da sociedade.

Profª: O mero fato da sua identidade enquanto escritora ser pó- moderna (não fixa, não unificada, não individual no sentido do eu ser o centro da razão, mas sim em processo contraditório e transitório, de plural identidade que tem o futuro como perspectiva de visão é não o passado este específico do sujeito da Identidade do Iluminismo ou tradição) não lhe impede de fazer articulações literárias com as identidades culturais do período histórico antigo e da tradição? Justifique.
Esctª: O homem faz parte dessa roda que é a história. O escritor não pode se fechar em seu mundinho, em seu espaço-tempo. Ele tem a possibilidade de alimentar seu mundo ficcional com elementos do passado ou do futuro. O importante é recriar o ontem, ou seja, trabalhar o texto para que o passado histórico se torne um passado ficcional. A crônica trabalha com elementos do dia a dia, mas o conto, o romance, a poesia, podem afastar-se do cotidiano e recriar mundos imaginários.

Profª: Qual o propósito comunicativo para com os leitores da sua obra "A BARCA DE RÁ - POEMAS DA TRAVESSIA DOS PERSONAGENS MORTOS PELOS PORTAIS DAS 12HORA"?
Esctª: A fantasia não pode ter limites. O autor precisa de liberdade para se mover no tempo e no espaço. Essa obra está construída de maneira polifônica. Existe união de elementos: A barca de Rá, (mitologia egípcia), o Coral que em cada capítulo interrompe a narrativa - lembra o teatro grego - e no final de cada capítulo aparece a fala de alguns personagens de livros marcantes, entre eles: “Pedro Páramo” de Juan Rulfo; Úrsula de “Cem Anos de Solidão” de Garcia Márquez,  Ofélia (de “Hamlet”) de Shakespeare, entre outros. O medo desses personagens é cair no esquecimento, morrer. A pergunta fundamental é. Se o mundo caminha para a exacerbação do consumismo e da tecnologia, será que os personagens resistirão ou morrerão?

Profª: Qual a intencionalidade da escritora ao trazer uma ficção literária dentro de outra ficção de um contexto da antiguidade e da tradição para um contexto contemporâneo?
Esctª: O mundo exterior foi mudado com a tecnologia. Mudou também nossa maneira de viajar, de vestir e de nos comunicarmos. Mas o ser psicológico teve poucas mudanças: os instintos, as emoções, continuam dominando a vida humana. Só que o homem aprendeu a racionalizar, a mudar as perspectivas. Por exemplo: se você está em um shopping e um homem com um revólver ameaça as pessoas, elas correrão sem pensar para onde estão indo. O instinto as levará a afastar-se o mais rápido possível do perigo. Todos correrão juntos: o ator famoso, a diarista, o respeitado juiz, a secretária, o pedreiro, o médico, a pedagoga, o desempregado... Pessoas de diferentes idades, sexos, condição econômica, social ou profissional terão a mesma atitude: fugir. É o comportamento imposto pelo instinto de sobrevivência. Ou seja, os instintos permanecem através do tempo. O egípcio antigo vivia a ficção de seus deuses, mas o homem moderno também vive uma ficção: a ficção da tecnologia e da invulnerabilidade. Procura segurança (isso é instinto), e sente-se seguro com uma conta bancária forte, com uma bela casa com muros, enfim, acha que está sempre enganando e driblando a morte. Nossa ficção contemporânea faz com que adolescentes corram o risco de se machucar e até morrer tirando selfies em locais perigosos. Isso porque o ser humano tem a capacidade de fabular, e esse poder fala ao ouvido do jovem que é preciso tirar uma foto especial para ter muitas curtidas. Essa selfie pode lhe dar visibilidade. Desejará o jovem ser aplaudido? Ser amado? Aquele homem que vivia no Antigo Egito não tinha celular, nem internet, mas também queria ser admirado e amado. Talvez alguns jovens morreram ao atravessar o rio Nilo nadando para despertar a admiração de seus amigos ou o amor de uma mulher.
Em síntese: o livro A barca de Rá tenta resgatar esse encantamento, essa ficção da qual todos fazemos parte.

Profª: Tem como você falar um pouco sobre os símbolos e as diferentes cores que compõem cada capítulo do livro?
Esctª: O símbolo que escolhi foi Amon-Rá, que é um símbolo solar. No centro está o Sol ladeado por duas serpentes, e pelas asas. Como era um dos símbolos do poder do faraó, decidi usá-lo ao iniciar cada capítulo. Para que a imagem não fique cansativa mudei as cores com um programa do computador. Mas foi só com essa finalidade, não tendo nenhuma relação com a simbologia do Amon-Rá. Na Mitologia do Antigo Egito o dia era dividido em quatro partes: o nascer do sol, o meio-dia, o pôr do sol e a noite. Os egípcios imaginavam que à noite o Sol viajava em um barco rumo ao leste. Nessa viagem ao mundo das sombras, tinham de lutar contra Apópis, a serpente do mundo inferior que tentava devorá-los. De manhã o Sol triunfante aparecia no céu e se iniciava uma nova jornada. Durante a noite a barca de Rá enfrentava diferentes desafios. Cada hora era representada como um portal. Nesse mundo criado pela imaginação dos egípcios coloquei os personagens de alguns livros. Eles são chamados para fazer parte da viagem. Cada um deles carrega a sina designada pelo autor. Cada personagem é um ser fixo, estático, criado por um escritor, mas possui o poder de desafiar a nossa imaginação e de nos emocionar.


Isabel Furini no lançamento de Vírgulas e outros Silêncios
                                                                           
BIOGRAFIA: Isabel Furini
Educadora e escritora, de nacionalidade argentina, escreve poemas desde criança. Suas poesias foram premiadas no Brasil, na Espanha e em Portugal. Publicou 35 livros, entre eles a Coleção \\\"A Corujinha e os Filósofos\\\" da Editora Bolsa Nacional do Livro, em 2006, \\\"Joana a Coruja Filósofa\\\" e \\\"O Grande Poeta\\\", para o público infantil. Publicou \\\"Os Corvos de Van Gogh\\\" e \\\", e Outros Silêncios\\\" (Poemas). Foi nomeada Embaixadora da Palavra pela Fundação Cesar Egido Serrano (Espanha); Embaixadora da Rima Jotabé, Espanha; recebeu Comenda Ordem de Figueiró e foi nomeada Embaixadora Internacional e Imortal da Poesia pela Academia Virtual de Letras, Artes e Cultura do Brasil, em 2015.

                                                                  ***

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

COMO ESCREVER LIVROS DE CONTOS E DE CRÔNICAS?


Recebi um e-mail de um leitor que deseja escrever um livro, mas não consegue definir se seus textos são contos ou crônicas. Nada de estranho com isso, pois na atualidade diferenciar um conto de uma crônica é uma tarefa difícil.

Não é raro confundir os dois gêneros. Isso acontece muito e provoca longos debates em concursos literários. Porque enquanto alguns consideram que a crônica deve ser simples, tão simples, que qualquer elemento enriquecedor tira a sua característica de crônica, outros acham que a crônica é um gênero oceânico, permite qualquer tipo de abordagem.

Mas afinal quais são as características de um bom conto? O conto, como qualquer texto ficcional, cria um universo paralelo. E esse universo deve ser plausível. Alguns dizem que um bom conto é aquele que o leitor lê sem parar, quase sem respirar. Um conto precisa de uma narrativa intensa, de tensão. Tudo se encaminha para o desfecho, o escritor não tem tempo de tratar de assuntos laterais. O conto é curto e condensado.

Em “O Livro do Escritor” (editora Instituto Memória, 2009), ao analisar os contos, falei: Escrever contos é uma boa opção para iniciantes. O trabalho conclui-se mais rápido. A ansiedade termina em pouco tempo. Isso pode criar a falsa ideia de que escrever um conto é uma tarefa menor: talvez insignificante. Critério errado. A estrutura do conto não é mais simples do que a do romance. É diferente. Escrever um bom conto é difícil.

E a crônica? Já foi considerada um gênero híbrido por flutuar entre a literatura e o jornalismo. A crônica tem pontos em comum com o conto. As duas são narrativas curtas. Além disso, a crônica também admite personagens, o que a torna muito semelhante ao conto.

Então, quais são as diferenças? Enquanto o conto admite enredos infinitos, a crônica focaliza assuntos cotidianos. O conto admite vários incidentes. A crônica, só um incidente. A característica marcante da crônica é o ponto de vista, a opinião, o comentário, elementos que podem prejudicar um bom conto.

Desse modo, podemos concluir que conto e crônica não são gêmeos univitelinos. E o que exigem do escritor? O conto exige unidade, além de criatividade. Já a crônica exige o poder de observação. O cronista é bom observador e um bom ouvinte. Ele escuta frases, fragmentos de conversas na rua, na fila de banco, no restaurante. Como falou Rubem Braga, o cronista olha o mundo com os olhos de um poeta ou de um bêbado.

Uma característica: os dois gêneros parecem fáceis de trabalhar. Como são gêneros rápidos, dão a falsa impressão de que é só sentar ao computador e é possível escrever crônicas e contos excelentes. Mas não é assim. Esses estilos requerem análise microscópica. É preciso, depois de escrever, trabalhar cada parágrafo, cada frase.

Como fala o aforismo: a crítica é fácil, a arte é difícil.


Isabel Furini é escritora e poeta.

sábado, 19 de dezembro de 2015

O Arco e a Lira - Fragmentos do livro de OCTAVIO PAZ


Há máquinas de rimar, mas não de poetizar. Por outro lado, há poesia sem poemas; paisagens, pessoas e fatos podem ser poéticos: são poesia sem ser poemas. Pois bem, quando a poesia acontece como uma condensação do acaso ou é uma cristalização de poderes e circunstâncias alheios à vontade criadora do poeta, estamos diante poético. Quando - passivo ou ativo, acordado ou sonâmbulo - o poeta é o fio condutor e transformador da corrente poética, estamos na presença de algo radicalmente distinto: uma obra. Um poema é uma obra. A poesia se polariza, se congrega e se isola num produto humano: quadro, canção, tragédia. O poético é poesia em estado amorfo; o poema é criação, poesia que se ergue. Só no poema a poesia se recolhe e se revela plenamente. É lícito perguntar ao poema pelo ser da poesia, se deixamos de concebê-lo como uma forma capaz de se encher com qualquer conteúdo. O poema não é uma forma literária, mas o lugar do encontro entre a poesia e o homem. O poema é um organismo verbal que contém, suscita ou omite poesia. Forma e substância são a mesma coisa.

Mal desviamos os olhos do poético para fixá-los no poema aparece-nos a multiplicidade de formas que assume esse ser que pensávamos único. Como nos apoderarmos da poesia se cada poema se
Fotografia de Isabel Furini
mostra como algo diferente e irredutível? A ciência da literatura pretende reduzir a gêneros a vertiginosa pluralidade do poema. Por sua própria natureza, a pretensão padece de uma dupla insuficiência. Se reduzirmos a poesia a umas tantas formas - épicas, líricas, dramáticas -, o que faremos com os romances, os poemas em prosa e esses livros estranhos que se chamam Aurélia,Os cantos de Maldoror ou Nadja? Se aceitarmos todas as exceções e as formas intermediárias - decadentes, incultas ou proféticas -, a classificação se converterá num catálogo infinito.

Enquanto o poema se apresenta como uma ordem fechada, a prosa tende a se manifestar como uma construção aberta e linear. Valéry comparou a prosa com a marcha e a poesia com a dança. Narrativa ou discurso, história ou demonstração, a prosa é um desfile, uma verdadeira teoria de ideias ou fatos. A figura geométrica que simboliza a prosa é a linha: reta, sinuosa, espiralada, ziguezagueante, mas sempre para diante e com uma meta precisa. Daí que os arquétipos da prosa sejam o discurso e a narrativa, a especulação e a história. O poema, pelo contrário, apresenta-se como um círculo ou uma esfera - algo que se fecha sobre si mesmo, universo auto-suficiente no qual o fim é também um princípio que volta, se repete e se recria. E essa constante repetição e recriação não é senão o ritmo, maré que vai e que vem, que cai e se levanta. O caráter artificial da prosa se comprova cada vez que o prosador se abandona ao fluir do idioma. Tão logo se volta sobre seus passos, à maneira do poeta ou do músico, e se deixa seduzir pelas forças de atração e repulsa do idioma, viola as leis do pensamento racional e penetra no âmbito de ecos e correspondências do poema. Foi isso que ocorreu com boa parte do romance contemporâneo. O mesmo se pode afirmar de certos romances orientais, como Os contos de Genji, da Senhora Murasaki, ou o célebre romance chinês O sonho do aposento vermelho. A primeira lembra Proust, o autor que mais longe levou a ambiguidade do romance.

O ritmo é inseparável da frase, não é composto só de palavras soltas nem é só medida e quantidade silábica, acentos e pausas: é imagem e sentido. Ritmo, imagem e significado apresentam-se simultaneamente numa unidade indivisível e compacta: a frase poética, o verso. O metro, pelo contrário, é medida abstrata e independente da imagem. A única exigência do metro é que cada verso tenha as sílabas e os acentos requeridos. Tudo pode ser dito em hendecassílabos: uma fórmula de matemática, uma receita culinária, o cerco de Troia e uma sucessão de palavras desconexas. Pode-se inclusive prescindir da palavra; basta uma fileira de sílabas ou letras. Em si mesmo, o metro é medida vazia de sentido. O ritmo, pelo contrário, jamais se apresenta sozinho; não é medida mas conteúdo qualitativo e concreto. O metro nasce do ritmo e a ele retorna. No princípio, as fronteiras entre um e outro são confusas. Posteriormente, o metro se cristaliza em formas fixas. Instante de esplendor, mas também de paralisia. Isolado do fluxo e do refluxo da linguagem, o verso se transforma em medida sonora. Ao momento de acordo segue-se outro de imobilidade; depois, sobrevém a discórdia e no seio do poema se estabelece uma luta: a medida oprime a imagem ou esta rompe o cárcere e regressa à fala a fim de se recriar em novos ritmos. O metro é medida que tende a se separar da linguagem; o ritmo jamais se separa da fala porque é a própria fala. O metro é procedimento, maneira; o ritmo é temporalidade concreta. (...)

Octavio Paz - (1914 -1998) México. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1990.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

QUANDO UM CRÍTICO ENCONTRA A POESIA - Professor Robson Lima


Para um crítico literário o melhor presente é quando ele pressente que um bom poema vira clima. Falo isso porque fui fisgado por um poema clima muito bem construído pela poeta Isabel Furini.

É notável a diferença entre um poema feito com técnica e refinamento de um desabafo histérico on-line, on paper ou on voice, quando gritados no Passeio Público, por exemplo.

Desabafos histéricos financiados, inclusive, com o dinheiro público, gasto em péssimas estratégias de políticas ditas culturais. Esta é a minha opinião democrática e garantida pelo Estado Civil de Direito. Mas esqueçamos desta metuenda concepção de poesia, que rasteja por aí, e nos atenhamos ao que há de melhor.

Posto o poema para que o leiam e em seguida farei a análise crítica.

POESIA
os poemas impulsionam sonhos
alimentam as almas dos dragões
quebram antigos espelhos
invadem sentimentos no quadrante das ilusões
alagam os jardins para que as flores
naveguem em barquinhos de papel
gravem nas pedras do labirinto
textos sibilinos
escritos com o sangue envenenado do mundo globalizado

(choram as Musas
e chora o Minotauro no labirinto das palavras)

FURINI, Isabel. Poesia. Disponível em: Acesso em: 25 de setembro de 2015.

Quadro de Baldassare Peruzzi.
Quadro de Baldassare Peruzzi.
Ao nos depararmos com o título do poema "Poesia", já sabemos que se trata de um metapoema. Um poema que fala sobre si mesmo, sobre sua confecção ou sua finalidade.
Dou-me o luxo de fazer uma observação interessante, antes de prosseguir a análise. Notem que o título do poema é "Poesia", mas durante todo o texto o "eu lírico" fala sobre poema. Sim, há poema sem poesia e os há aos borbotões. Basta darmos uma circulada pela cidade. Poemas com corpo, mas sem alma, caminham por aí ao estilo Walking Dead. Mas estes poemas sem poesia não são o tema do poema em questão.
Consideremos, então, o fato de que o poema, objeto do argumento do "eu lírico" seja um poema com poesia: alma + corpo. Somente um poema com poesia faria a viagem proposta pelo texto. Então, vamos à viagem!
Reparem os dois primeiros versos:
"os poemas impulsionam sonhos
alimentam as almas dos dragões"
Aqui os poemas são impulso e alimento. Ao impulsionar sonhos o poema vê uma lua no céu e se torna as asas de Ícaro. O sonho de voar é o que impulsionou o mitológico sonhador às alturas. Uma altura da qual muitas vezes não se pode escapar ileso.
O poema, neste primeiro verso, é um motor propulsor que, se obviamente compreendido, torna-se compressão e nos lança para o alto. O poema, com toda sua inutilidade, nos eleva e releva nossa condição mortal.
No segundo verso os poemas "alimentam as almas dos dragões". Bem, aqui o poema vê uma lua no mar. O dragão é um fenômeno mitológico bastante raro, pois é representado em diversas culturas. É a união entre a serpente que rasteja e a ave que voa.
Ao alimentar a alma desta dicotomia entre céu e terra, o poema encerra em si o papel de elo. Um poema elo entre céu e inferno, entre a lua do céu e a lua do mar. Um reflexo complexo de dois extremos em si mesmos.
A palavra "dragão" não está no poema à revelia. Ela marca com água e fogo, céu e inferno, lua e mar o reflexo dos extremos que se contemplam. A tensão de se contemplar o diferente e o antagônico é a marca do início do poema.
Em seguida, mais dois versos:
"quebram antigos espelhos
invadem sentimentos no quadrante das ilusões"
A tensão gerada pelos dois primeiros versos encontra seu ápice nos dois versos seguintes. Quando o "eu lírico" afirma que os poemas "quebram antigos espelhos" ele nos apresenta outra qualidade do poema: a iconoclastia do conteúdo e da forma.
Um espelho antigo refletira a imagem de sabe-se quantos rostos e desgostos. O espelho é o símbolo da realidade que não pode ser tocada. A realidade, Medusa, não pode ser encarada sob a pena nada penada de nos aturdir a tal ponto que podemos nos petrificar de espanto.
Lembremo-nos de que Perseu só consegue encarar a sua realidade Medusa pelo reflexo do seu escudo. O espelho é nosso escudo para a realidade. Vendo a realidade no espelho ela deixa de ser palpável e por isso torna-se menos aterrorizante.
O poema iconoclasta quebra o nosso escudo de reflexos e nos deixa perplexos diante da realidade nua. Ou, em outras palavras, o poema nos tira a segurança do conhecido e nos revela múltiplas realidades distorcidas.
Uma vez que o espelho está aos cacos, cada caco reflete a sua realidade eco. Não há mais uniformidade, mas deformidades. O poema iconoclasta deforma a realidade sabida e invade o quadrante das ilusões para penetrar os sentimentos.
Esta penetração não consentida, já que o poema não pede, mas "invade", no estupro dos sentidos, muda o olhar do leitor para as coisas. Isso fica evidente nos dois versos que seguem:
"alagam os jardins para que as flores
naveguem em barquinhos de papel"
Aqui a prosopopeia que permeia todo o poema e faz dele um sujeito ativo de seu próprio efeito alaga jardins. Perceba que o poema sai dos cacos do caos para construir novas imagens. As flores do jardim são metaforizadas em barquinhos de papel a navegar pelo alagadiço jardim da vida.
É um momento de trégua em que o poema se entrega à devassidão da metáfora. Sim, a metáfora é uma devassidão que transforma a coisa em outra coisa, prostituindo sentidos em cada esquina do poema, no fetiche de cada pezinho do verso.
O poder transformador do poema que hora nos aquieta, ora nos inquieta é sua forma-efeito de refletir extremos. Após a tempestade draconiana dos dois primeiros versos e da quietude navegante do final da primeira estrofe, temos:
"gravam nas pedras do labirinto
textos sibilinos
escritos com o sangue envenenado do mundo globalizado"
A navegação se transforma em gravação. O poema tenha forma fixa ou não, seus sentidos são deformados e lança o leitor em um labirinto de possibilidades, molhado pelas previsões das Sibilas.
As Sibilas eram deidades romanas que tinham o dom da profecia. Os poemas, com suas possibilidades deifobas, deixam gravados os descaminhos labirínticos de uma humanidade que vive em um mundo globalizado.
Interessante notar que, neste verso, a insistente repetição da consoante sibilante [S] provoca um som semelhante a um pedido de silêncio. Um silêncio sibilante de Sibila que profetiza sangue e envenenamento.
O mundo globalizado que fornece e fenece a tinta sanguínea para a escritura do poema não redime o poema de sua culpa. O poema não é uma vítima inocente de um processo de dissolução, pois ele mesmo quebrou o espelho e fez cacos da realidade.
Enquanto o mundo globalizado encurta distâncias o poema deforma sentidos. Há, então, uma simbiose entre envenenamento e poesia, ópio e espelho, céu e terra, corpo e alma.
Nesse processo simbiótico e caótico o poema termina:
"(choram as Musas
e chora o Minotauro no labirinto das palavras)"
Repare que ao usar o recurso dos parêntesis, a poeta transforma o final do poema em uma espécie de rubrica de uma peça dramática. As musas dos poetas comportados e sonhadores choram e chora o Minotauro, metáfora do "eu lírico", metade homem, metade animal a vagar pelo "labirinto das palavras". Um labirinto que não tem fim, semelhante ao labirinto de Creta e que, de forma discreta, revela que a única saída é por cima.
Apenas o poema elevado pode escapar da perdição do labirinto. Somente um voo cego e elevado, acima das paredes da realidade, acima dos alicerces da obviedade, acima dos aplausos da mediocridade, acima de qualquer deidade e sobre o império dos sentidos em cacos consegue libertar este "eu lírico" de seu típico final sinal de sina.
Bem, esta foi a minha análise do belo poema de Isabel Furini. É de poemas assim que Curitiba precisa. São poetas como Isabel Furini que fazem Curitiba se olhar no espelho e se molhar toda nua no bebedouro do Largo da Ordem que em silêncio se insinua a nos mostrar o perplexo reflexo da Lua.
Professor Robson Lima
Professor Robson Lima

Professor Robson Lima
Robson Lima, professor, palestrante e consultor de Língua Portuguesa.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Personagens no conto e na crônica











Maximo Gorki em Como Aprendi a Escrever(página 75), afirma: A arte da criação literária, a arte de forjar personagens e tipos existe imaginação, intuição, habilidade para “compor coisas” nos quadros da mente.

Gorki considera que é possível escrever ficção, descrever, por exemplo, um tipo de comerciante ou de operário retratando uma pessoa que o autor conhece, mas que para aumentar a amplitude e profundidade, um escritor deve conhecer vinte cinqüenta ou cem comerciante ou operários, traçar seus perfis, costumes, crenças, atitudes, expressão e depois, sintetizar todas as características em um personagem.

No momento de trabalhar a história é preciso fugir do lugar comum. A inversão, a substituição de um elemento pelo seu contrário, dá ao conto o sabor do inesperado.

O personagem não precisa ser simples, lembremos de Tartufe disfarçado de devoto, o diabo, de criança, o jovem príncipe de mendigo – atitudes estranhas de um personagem ou o equívoco de suas ações podem dar vida à obra de ficção.

Seres humanos são contraditórios, por que os personagens não poderiam também mostrar contradições entre palavras e ações? Ou contradições internas, por exemplo, entre o dever e o desejo. O orador pode ministrar uma palestra emocionante sobre os problemas dos ciúmes, porém terminado a palestra brilhante pode sentir ciúmes da esposa. O médico pode fazer um belo discurso sobre a necessidade de parar de fumar e, terminada a palestra, acender um cigarro. Um homem pode desejar ser amável, mas fala agressivamente quando é contrariado. O gerente tenta se controlar, mas quando não encontra o relatório tem um acesso de raiva.

O trabalho de personagem deve ser intenso. Um personagem é um revelador de uma faceta do homem. Máximo Gorki (página 91) dizia que “um escritor só poderá criar vivos retratos de pessoas típicas se possuir bem desenvolvido o poder de observação, a capacidade de encontrar semelhanças e descobrir diferenças e se está disposto a aprender, a prender e aprender.”

A crônica trabalha o personagem como espelho. A crônica tira as vestes das pessoas, as ajuda a entender a própria subjetividade, a rirem de si mesmas e do mundo. Faz lembrar de um personagem da mitologia asteca chamado Tezcatlipoca, o senhor do espelho fumegante. Tezcatlipoca vestido como um homem simples chega ao palácio de Quetzalcoatl dizendo que tem um presente especial. Quetzalcoatl o recebe e quanto pergunta pelo presente o visitante lhe mostra um espelho. Quetzalcoatl fica admirado e desesperado ao mesmo tempo e pergunta: Todos me vêm desse jeito. O visitante disse que sim. Quetzalcoatl, triste, confessa que ele não sabia que era tão feio, que ele não se conhecia até ver-se refletido nesse espelho.

O cronista, muitas vezes, é como um novo Tezcatlipoca, o senhor do espelho. De fininho, de maneira simples, aproxima o leitor de um espelho para possa ver o próprio rosto. Aquele rosto cheio de marcas de raiva, de dúvidas, com algum sulco de inveja, com instintos que lembram aquele conceito freudiano de que em todo homem existe um canibal, ainda que nem sempre ele se manifeste.
Esse conceito do personagem como um de ficção no qual nos espelhamos nos faz entender a posição de Platão e Aristóteles. Eles entendiam que os protagonistas deveriam ser virtuosos para servirem de exemplo aos homens.

Isabel Furini é autora de “O Livro do Escritor”, da editora Instituto Memória, de Curitiba.

sábado, 3 de julho de 2010

"Dicas" de como Escrever Livros


Quem mantêm este blog já publicou 20 livros e fez trabalho de ghostwriter (escritor fantasma), além de orientar oficinas para futuros escritores. Nas oficinas os alunos sempre solicitam "dicas" para melhorar seus textos.

Na continuação algumas "dicas" para construção de personagens de contos, novelas e romances:

1) Para construir personagens interessantes é preciso lembrar que os eles são seres complexos e podem apresentar contrariedades, agiar de forma inesperada.

2) O personagem pode crescer à medida que a obra avança. Às vezes nos surpreendem. São seres vivos, diríamos, que têm facetas escondidas, misteriosas.

3) O personagem tem uma história - o autor precisar conhecer bem a biografia do personagem, mas não é necessário escrever os detalhes.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

COMO ESCREVER UM LIVRO?

AULA 2° TÉCNICA DO CONTO
Veríssimo é tão divertido! Ele escreve contos? Ele escreve crônicas. Crônicas de humor. Excelentes! Surge a primeira dúvida o que é um conto? O que é uma crônica?

Iniciaremos com o conto. Difícil definir. Podemos dizer que o conto é uma obra breve. Sua estrutura é concisa. Econômica. Porém nada pode faltar. É preciso arquitetar as palavras de tal forma que o conto mostre o essencial. Os comentários pessoais estão proibidos num conto. Os personagens devem surgir vivamente diante de nossos olhos. O conto mostra um instante enquanto o romance avança no tempo.

Tchekhov afirmou que um conto precisa de condensação, concentração ou compactação. Edgar Allan Poe confirma com a frase: “Em contos é melhor não dizer o suficiente que dizer demais...” E com esse conceito entramos no âmago do conto contemporâneo. Você não precisa dar todos os detalhes da cena, nem fazer um retrato minucioso do personagem. Você pode dar pinceladas. Certeiras. Deseja ler contos que surpreendem pela originalidade e pela utilização de recursos literários? “Tarde à Noite” de Luiz Vilela.

Se não tiver condições de adquirir as obras consagradas procure nas Bibliotecas. O importante é ler. Leia os contos de Machado de Assis, Clarice Lispector, Dalton Trevisão. Tem contos para todos os gostos. Aprecia terror? “História Extraoridnárias” de Edgar Allan Poe. Prefere literatura mais leve? “História de Fadas” de Oscar Wilde. Contos de fundo filosófico? Escolha Kafka, Borges, Saramago. Humor? “Histórias de Cronópios e de Fadas” de Julio Cortázar. Com o tempo você escolherá seus contistas preferidos. Só os que realmente falam a sua alma.

SUGESTÃO DE EXERCÍCIO Leia um conto de um autor consagrado até a metade. Não leia o final. Escreva um final para o conto. Depois leia o final que o autor escreveu. Isabel F. Furini é escritora e poetisa. E-mail: livrocoruja@yahoo.com.br

sábado, 29 de março de 2008

COMO ESCREVER UM LIVRO?

Aula 1º VOCÊ GOSTA DE ESCREVER? Os artigos de “Como escrever um livro” – que iniciam hoje- tem o objetivo de auxiliar futuros escritores. Dar os lineamentos gerais para obras de ficção e obras técnicas. Ministramos a “Oficina do livro” no Solar do Rosário – Curitiba- desde 1999 . Nosso objetivo foi e é, auxiliar aqueles que desejam escrever livros. Tivemos a sorte de publicar alguns livros. Que satisfação pessoal se experimenta quando os originais são aceitos e o livro é editado! “É como ter um filho” fala a maioria dos escritores.

Muitas pessoas já participaram da “Oficina do Livro”. Alguns me ligam para contar-me que estão entusiasmadas que escrevem melhor. Outros ligam para dizer que estão um pouco assustados pois se tornaram leitores críticos e reconhecem rapidamente os erros de estilo que um autor comete. Leitor crítico é um bom sinal! Houveram flores e espinhos. Há três ou quatro anos, em uma das aulas, um aluno reclamou: “Só recebi pinceladas”. E é verdade. Sentimos medo. Muito medo de criar parâmetros rígidos que inibam a livre manifestação do autor. Por isso só damos “pinceladas” ou seja, traços gerais para que cada um possa aplicar o conhecimento de acordo com seu próprio estilo.

O verdadeiro trabalho é ajudar o iniciante a encontrar o próprio estilo. Orientadores só podem assinalar o caminho. Cada um percorrerá a própria estrada. Sozinho. Sem muletas. Guiado pelo instinto. Está longe de nossa vontade criar um modelo para que possa ser seguido, em todos os seus pontos, como uma obra religiosa. Um escritor padronizado mata a criatividade. Queremos que o espírito permaneça livre. Sempre. Só podemos auxiliar com explicações gerais. “Caminante no hay camino se hace camino al andar”, falou com sabedoria o poeta espanhol.

Nas próximas aulas vamos esclarecer como delinear os personagens, fazer uma cena-chave, uma boa descrição, um enredo interessante, um desenlace inesperado. Como utilizar esse conhecimento? Isso dependerá de cada pessoa. Só podemos dar sugestões: não usar adjetivos em excesso, cuidado com o gerúndio. Procurar palavras fortes. Cortar o supérfluo. Buscar cenários interessantes. Leia com atenção cada matéria, utilize “as dicas” e verá que a arte de escrever não é bicho de sete cabeças.

Na próxima iniciaremos com estudos sobre o Conto. Se tiverem dúvidas favor escrever para esta coluna. SUGESTÃO DE EXERCÍCIO: Escreva uma história sobre algum acontecimento embaraçoso. Exemplo: aquele dia que o pai foi ao trabalho com sapatos pretos, mas de estilos diferentes. Ou quando você fez uma caminhada no parque, guarda-chuva na mão, e saiu um sol escaldante. Crie uma história. Tente prender a atenção do leitor. Depois leia para familiares e amigos. Escute com atenção as críticas.

Isabel Furini é autora de "O Livro do Escritor", editora Instituto Memória, Curitiba.
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